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Flávio de Carvalho desveste a moda

novembro 15, 2010

Foi até ontem no MuBe, em São Paulo, a exposição “Fávio de Carvalho Desveste a Moda Brasileira da Cabeça aos Pés” e, olha, quem não foi perdeu. Partindo de 39 artigos escritos pelo artista modernista e publicados no Diário de São Paulo entre março e outubro de 1956, a exposição fez um passeio pela moda brasileira dos últimos 30 anos, com fotos de nomes como Jacques Dequeker, Bob Wolfenson, Thelma Vilas Boas, entre muitos outros.

Fávio de Carvalho (1899-1973), um dos maiores (e mais incompreendidos) artistas do Brasil, ficou conhecido por seus projetos experimentais e por sua arte irreverente, em uma época de muito conservadorismo. Em uma de suas performances mais conhecidas, saiu pelas ruas de São Paulo trajando saiotes idealizados como roupas masculinas.

A Experiência nº 3 de Fávio de Carvalho

Como poucos, dedicou-se às artes plásticas, arquitetura, cenografia, literatura, performance, música e tudo o que estivesse ao seu alcance. Na exposição, conhecemos alguns de seus textos que dizem respeito à moda, mais precisamente à história do vestuário e a sua relação com a evolução humana. Despreocupado com qualquer embasamento teórico (pelo menos na exposição não aparece  nenhuma referência de outros autores), ele tece suas ideias a respeito do significado do uso do chapéu, das joias, da cauda dos vestidos femininos, das calças compridas e outros elementos.  Em uma das passagens mais interessantes, fala do chapéu como “ladrão de almas” e da cauda do vestido como símbolo de pudor ou medo de um atentado ao pudor. Fala também sobre moda e liberdade e como as classes superiores sempre se inspiraram e se apropriaram de peças e elementos de classes e seres inferiores, como forma de demonstrar o seu poder e também para alcançar a liberdade. Seus escritos foram alguns dos primeiros estudos de moda produzidos no Brasil.

Segundo J. Toledo (retirado do texto de apresentação da mostra), o conjunto de artigos do qual parte a exposição já é, ele próprio, uma redução de um tratado de mais de 1000 páginas que Flávio de Carvalho pretendia publicar sob o título “Dialética da Moda”, assunto da mais alta relevância para o artista. Tenho pra mim que este livro, se fosse publicado, seria uma das maiores referências de estudo sobre história do vestuário até hoje.

Ensaio de Fábio Bartelt para a revista Elle

 

Pra quem não conseguiu ver, deixo aqui um trecho da apresentação da exposição e alguns trechos dos textos do artista.

Vestimo-nos para melhor nos mostrar. Ocultamos mais ou menos nossos corpos para comunicar quem somos, como gostamos de estar no mundo. Revestimos, embalamos, envelopamos nossos corpos para deixar claro que somos agressivos ou delicados, enigmáticos ou diretos, complexos ou simples, diferentes ou padronizados. Valemo-nos de roupas porque queremos chamar a atenção, passar despercebido ou alguma coisa no meio do caminho. Em qualquer caso, seja qual for o nosso desejo, está claro que não vestimos apenas roupas: vestimos ideias. Dito de outro modo: roupas são ideias materializadas. Calças, saias, vestidos, chapéus, sapatos, cintos, brincos, luvas, braceletes, suspensórios, calcinhas, meias e paletós, entre tantas peças com as quais ornamentamos nossas peles, têm uma história que se perde no tempo. Cada um desses objetos foi inventado por algum motivo; traz consigo, ainda que adormecido, o desejo que o levou a existir. Às vezes os objetivos são óbvios: roupas em geral servem para abrigar o corpo. Mas o mundo, ou melhor, o homem, não tem nada de simples. Ou será que você nunca se perguntou quem, e com que finalidade, criou  a gravata?

Esta não é uma simples exposição de moda. Para começar porque a moda não é uma coisa simples (…)

Agnaldo Farias – Curador

 

Luana Teifke por Jacques Dequeker

 

O homem necessita da moda para a sua estabilidade mental. O equilíbrio do curso da etapa histórica também necessita da moda. A moda funciona como reguladora mental dos povos.

O traje eleva o homem para as alturas da consciência e da liberdade. A liberdade é uma manifestação da alegria e de superioridade indivudual e provém da compreensão minuciosa que o indivíduo tem de si mesmo e das relações detalhadas com o seu semelhante. O traje e a moda devem ser considerados como uma libertação das inferioridades do homem. É pelo traje e pelos costumes que ele consegue se livrar das inferioridades, compensando-as. O traje é, pois, uma manifestação de liberdade.

Os costumes de cerimoniais patrióticos são maneiras de compensar inferioridades.

No início, pelo uso da pele da fera, isto é, imitando um ser inferior, o homem consegue garantir para si não só a sua liberdade, mas a própria vida.

Flávio de Carvalho

 

Para quem quiser conhecer mais sobre a obra desse controverso artista, tem alguns artigos dele aqui.

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Double Kate

outubro 31, 2010

Kate, vamos ser amigas, comer cupcake e fazer compras juntas?

 

E aqui o shoot da capa do novo álbum do Bryan Ferry.

 

Emenda

outubro 30, 2010
by

pra mim, o mais legal desses comerciais que aline postou abaixo é que – além de terem essa magia óbvia que os fez atravessar o tempo –  eles não têm uma magia qualquer, aleatória.

a “poesia” da coisa tem a ver com o próprio jeans mesmo: simples,  meio selvagem e fresca,  um pouco rudimentar e que também  fica pra sempre na nossa mente :)

não quis perder a chance de emendar isso aqui no jeans de aline.  tá naquele limite entre paródia e referência, tão fácil de gostar.

abraços!

Jeans fetiche

outubro 30, 2010

É interessante como a história do jeans reflete tão bem as mudanças sociais ocorridas no último século. Segundo o livro Dicionário da Moda, de Marco Sabino, a peça surgiu em meados do século XIX, nos Estados Unidos, quando Levi Strauss e Jacob Davis resolveram transformar em roupa a lona que era usada na cobertura das barracas. No início, era usado pelos mineradores e eram de cor marrom. Strauss registrou a invenção, que logo começou a ser fabricada com brim azul pela Levi’s. Ainda no final do século XVIII, conta-se que o brim pesado já era usado pelos marinheiros da cidade de Gênova na Itália.

Em 1920, o jeans começa a se popularizar, quando pessoas mais ricas começaram a imitar o look dos cowboys e trabalhadores do campo, que usavam calça jeans e blusa de flanela (sim, muito antes dos anos 90). Já em 1950, começa a massificação da moda jeans, que virou símbolo jovem de estilo e atitude, com a forte ajuda do cinema e seus dois rebeldes sem causa: Marlon Brando e James Dean (quase jean!). Existe algo mais legal que isso?

Daí pra frente, todo mundo já sabe: o jeans virou uma febre mundial, ganhou diversas lavagens, modelagens, começou a se mesclar com outros materiais e ser usado por pessoas de todas as camadas sociais.

Já na década de 80, estilistas famosos, como Elio Fiorucci, descobriram o mapa da mina que era a criação de uma linha de jeans e, de peça básica, o item passou a ser artigo de luxo, ganhando novas cores e detalhes. O jeans, mais do que nunca, virou um fetiche.  Nessa época, Calvin Klein levou esse conceito ao extremo, lançando uma das campanhas mais marcantes da história da moda. O que existe em Brooke Shields e a sua Calvin Klein? Nada.

Em 1990, algumas campanhas da CK chegaram a ser banidas da TV, por serem consideradas “ofensivas”.

Eu sempre tive uma obsessão pelo “jeans perfeito”, aquele que parece que foi feito pra você, sabe? Porque nenhuma outra peça de roupa consegue ser tão flexível e praticamente se “transformar em outra” em diferentes corpos. Mas acho que, à medida em que os jeans foram se sofisticando, foi ficando mais difícil combiná-los com outras peças de roupa. Não é a toa que as propagandas exploram a imagem do jeans em corpos nus ou, no máximo, usando uma t-shirt branca ou outra peça em jeans. Sim, eu acho que essa história de que jeans combina com tudo uma balela! Principalmente com a grande diversidade de modelagens e lavagens que existe no mercado. Acho que quando se coloca uma camisa qualquer sobre um “jeans fetiche” ele meio que perde a força, não fica tão especial como quando usado sem nada (o que não é muito viável na prática). E como é difícil encontrar um bom e velho blue jeans sem detalhes e lavagens hoje em dia, não? Acho que esse é um dos motivos que tornaram o jeans da Amapô um hit, ele é simples e bonito, com uma modelagem incrível. Segundo Claudine Eisykman, curadora de uma antiga exposição com o tema “Metamorfoses no jeans”, os novos jeans transmitem informação em excesso:

“O jeans enfeitado deixou de ter relação com a lei do mostruário, pois já não manifesta a especificidade e os desvios que transmitem informações a serem decodificadas; ele inverte a circulação do vestuário. Em vez de conduzir ao código do vestuário, fixa em si mesmo as excitações do social; portanto, não há perda, como na relação tradicional da roupa com esse código. Há pelo contrário, um acréscimo, um excesso”.

Daí que agora eu quero apenas um belo jeans tradicional e funcional, back to basics. Onde é a Levi’s mais próxima?

 

*Boa parte da história do jeans contida nesse texto foi tirada desse artigo aqui. Tem também uma MAG! especial jeans que é ótima e uma seleção de fotos de jeans nesse post aqui.

 

O louco amor de Yves Saint Laurent

outubro 24, 2010

Fui ao cinema ontem assistir O Louco Amor de Yves Saint Laurent (Yves Saint Laurent – Pierre Bergé, l’amour Fou, 2010) sem grandes expectativas. Afinal, o que, de novo, ainda pode ser dito a respeito de Yves Saint Laurent? Dos vários documentários feitos sobre o estilista, já tinha assistido Yves Saint Laurent, le temps retrouvé (2002), que conta com muitos depoimentos de amigos e familiares e imagens riquíssimas de arquivo.  Nesse novo filme, dirigido pelo estreante Pierre Thoretton, acompanhamos a narrativa sob a ótica de Pierre Bergé, seu grande companheiro e empresário durante 50 anos. E, para minha surpresa, o filme tem um arquivo de imagens ainda mais rico que o anterior, misturado com cenas mais recentes, como a de seu velório e a do “leilão do século”, em que Bergé vendeu a vasta coleção de arte que ele e YSL montaram ao longo de meio século.

O tom do documentário é de profunda melancolia, com longas e lentas panorâmicas dos lugares onde o casal viveu.  Destaque para a linda mansão em Marrakech, onde Saint Laurent costumava passar férias e se divertir com os amigos, cometendo seus primeiros excessos com drogas e álcool. O filme se concentra bastante nessa época, uma das mais conturbadas da vida dos dois, quando Bergé chegou a sair de casa e morar sozinho por cerca de um mês. A trilha sonora dramática, composta por Côme Aguiar, contribui com clima de pesar, pontuada por momentos de um silêncio desconcertante, mas necessário.

Sob a perspectiva de Bergé, o mito Saint Laurent toma uma nova dimensão, mais humana e frágil. Além dele, o filme conta ainda com depoimentos importantes de Betty Catroux e Loulou de La Falaise, musas e grandes amigas do estilista. Mas o que mais emociona e encanta é o arquivo em vídeo de Saint Laurent, que com seu jeito tímido e um ar de ingenuidade, fala de seus gostos, seu amor por Proust e sua vontade de “fugir de tudo”. Em um dos momentos mais marcantes, conta para um entrevistador que nunca se sentiu jovem de verdade e que jamais conseguiria recuperar esse tempo.

Enquanto registro da moda contemporânea, o filme é uma preciosidade: são muitas cenas antigas de desfile do tempo em que Saint Laurent era estilista da Dior até seu desfile de despedida, em 2002. Enquanto história de amor, vemos um casal de homens que mostrou ao mundo a nobreza desse sentimento e serviu de exemplo para uma geração.

Abaixo, o trailer do filme:

 

Quem estiver em São Paulo, ainda pode conferir o doc na Mostra Internacional de Cinema em três sessões. Confira os dias, lugares e horários aqui.

Olympia

outubro 15, 2010

Kate na capa do novo álbum solo de Bryan Ferry, muito amor!

Aproveitando o ensejo, vale a pena ressuscitar esse post aqui sobre glam rock. Bjs.

Cecil Beaton em My Fair Lady

outubro 13, 2010

Incrível mesmo a relação de Audrey Hepburn com a moda em todos os seus filmes. Já falei aqui de Funny Face e da colaboração do fotógrafo Richard Avedon no filme. Agora é a vez de Minha Bela Dama (My Fair Lady, 1964), clássico de George Cukor com figurino e mise-en-scène do grande Cecil Beaton. Revi o filme ontem e fiquei encantada com a beleza e ostentação dos cenários e das roupas dos personagens.

O filme foi adaptado do musical homônimo da Broadway – que por sua vez foi adaptado da obra de Bernard Shaw – e conta uma típica história de cinderela: uma florista pobre (Audrey Hepburn), na tentativa de virar uma dama, começa a ter aulas de fonética com o professor Higgins (Rex Harrison), um linguista inglês pomposo e misógino. O resultado vocês podem imaginar, eles se apaixonam e ela se transforma na mais fina das damas da sociedade inglesa.

A adaptação ganhou diversos oscars, entre eles o de melhor filme, o de melhor direção de arte e o de melhor figurino. E não é pra menos. My Fair Lady é um dos trabalhos mais importantes de Cecil Beaton no cinema. Separei aqui a minha cena preferida do filme, a da corrida de cavalos. Reparem nas cores, nos movimentos e na perfeição de cada detalhe.

Os figurinos de Audrey no filme são um capítulo a parte. Um dos mais importante é esse abaixo, que ela usa na corrida de cavalos, um exuberante vestido branco justo, cheio de rendas, babados e com laços e tiras em preto e branco. Para complementar, um exagerado e enorme chapéu e uma sombrinha. É aquele tipo de coisa que só os tempos de magia e fantasia hollywoodiana eram capazes de criar.

Cecil Beaton também ficou famoso pelos seus retratos de famosos e pessoas comuns (veja alguns deles aqui), o que o levou a trabalhar para a Vogue em Londres e Nova York.

Audrey Hepburn por Cecil Beaton

Ouvi dizer que a Columbia Pictures está preparando uma nova adaptação do filme, dessa vez dirigida por John Madden e com Carey Mulligan fazendo o papel de Audrey. Vamos esperar para ver.