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Moda e delírio

setembro 21, 2010
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“Que da moda, faça-se história e mais do que criar imagens, que as roupas possam criar mundos possíveis e enredos singulares.” – do melhor amigo deste blog, @cotelgramps

não lembro sobre o que este post deveria ser. sempre falamos aqui da moda como linguagem (principalmente como linguagem que serve à autoexperessão) ou de maneiras de se articular a suposta singularidade de um indivíduo com os códigos  massificados que a moda propõe. em um outro texto aqui eu até defendi a liberdade de vivermos em um “carnaval fora das épocas”, para que cada um pudesse usar a roupa que achasse que melhor lhe representava. bem, tem um aspecto que eu não sei se já abordamos aqui nesse blog, que é o da moda como convenção. começando pelo fato de que a própria prática de se vestir já é uma convenção social (à qual ninguém pode deixar de seguir, sob pena de ir preso),  mas é bom lembrar que não basta se cobrir com qualquer coisa e que tem que cobrir certas partes-chave.

não sei como explicar – ou reiterar – ( e nem devo também) a importância  das roupas na nossa apreensão/interpretação do mundo, mas um bom jeito de ilustrar isso é levando em consideração que, assim como em qualquer outro campo onde se faz necessária a produção de sentido, no vestuário também há espaço para o Absurdo.

quebrar as convenções é sempre (e no mínimo) questionar. os vídeos acima são todos bastante recomendáveis, mas se vistos sob essa perspectiva do uso da roupa como elemento capaz de perturbar, questionar, ou até mesmo burlar a “inexorável positividade do real” eles se tornam ainda mais interessantes. gostaria de comentá-los detalhadamente, mas não sei se é o caso. reparem em como o “glamour bizarro”  (que está ganhando cada vez mais força dentro da cultura pop) de Lady Gaga  nos faz embarcar na sua história, que é quase como uma brincadeira de criança da qual todos participamos, como aquela fantasia do batman que te transformava em batman e que também transformava aquela mesa em um prédio muito alto ou o joão-bobo em um bandido perigosíssimo.

já nesse clipe no Fever Ray, a gente quase acredita que essa moça tem poderes mágicos, não apenas pelos efeitos especiais, mas graças ao seu visual improvisado de xamã moderna (a palavra xamã tem feminino?). e a “garota genial” do jet, q não tem rosto (e nem sexo) enquanto está com a máscara? o anonimato e a fantasia (nos dois sentidos da palavra) dão bastante poder a este personagem, que não se liberta apenas das convenções da moda.

gosto muito dessa provocação do Vampire Weekend, ela já apareceu por aqui.

eu acho que é pra terminar assim, lembrando que a moda é tanto uma forma de construir a realidade como de refleti-la e que  desafiar a convenção é romper com a sensação de pertencimento para, ao mesmo tempo inventar uma outra margem para um mesmo rio, além de – quem sabe – fazer parte de um outro mundo. se não isso, já é o suficiente para apontar a direção que mostra que esse mesmo mundo pode ser sempre um pouco maior.

3 Comentários leave one →
  1. setembro 21, 2010 11:19 pm

    roupa é um outro corpo, diz o tarcisio almeida. acho forçoso mas incrivelmente interessante. hj tenho pensado moda na sua antinomia: processo criatico x industria da moda.
    de todo modo, tenho um teoria sobre a lady gaga em que lacan, bauman e milhares de franceses dialogam comigo.
    escrevo?
    felix. te amo. mas, nao acho a gaga discursiva. acho estática – fazendo o trocadilho com estética.
    bj

  2. __felix permalink*
    setembro 21, 2010 11:38 pm

    concordo com essa relação entre roupa e corpo. talvez tenha a ver com aquele conceito de hiper-realidade que eu usei outro dia (pra falar de outra coisa q nem lembro).

    acho que nesse caso a indústria da moda é tipo aquela cobra da história em que o sapo se deixa devorar de tão fascinado que fica com o seu predador.

    peço, por favor, que vc escreva. sua leitura de lacan parece sempre muito interessante e inusitada (mesmo pra quem nem leu lacan, como eu. rs) e essa ideia sobre a gaga merece ser desenvolvida.

    estava falando outro dia q o pop é mais uma lógica que uma estética e que a gaga foi uma das pessoas que me fizeram entender mais isso. talvez nós não tenhamos opiniões tão diferentes assim sobre ela.

    nesse video, acho q tem sim uma espécie de historinha. aliás, esse video e aquele o outro fever ray, são ótimos expemlos pra mim de “obras” que vc acha que são um quebra-cabeça sem resposta, em que parece que está falatnado uma única peça pra tudo fazer sentido; mas que na verdade são como uma espécie de tangram que dá pra vc montar várias formas, onde nenhuma é definitiva. rs

    pfv, escreva esse textu. fiquei entusiasmado e curioso.

    abs

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