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Um Outro lado dos anos 90

julho 12, 2010

*Por cotelgramps

O pensamento histórico e o esforço reflexivo exigem que, num primeiro momento, algo de uma base, fundação, possa ser postulada para que, posteriormente – e ao gosto do desejo –, uma outra história seja formulada.

Sim! E antes que qualquer um me chame de antiquado em excesso e afirme que os vieses contemporâneos da forma de produzir conhecimento apontem pra um novo pensamento líquido, inconsistente e que advém por abiogênese, num a-historicismo doidão, advogo o contrário disso: para fundar o novo, há de ter a alteridade do antigo. Digo isto porque para pensarmos um “Outro lado dos anos 90”, é preciso recorrer a outro texto que publiquei aqui, intitulado “O feminino borrado e o masculino não tão viril: comportamento e moda nos anos 90”. Neste, defendo que a polaridade do mundo entre “capitalistas” e “socialistas”, quando da sua dissolução no final da década de 80 e começo da década de 90, promoveu uma resposta: o decaimento dos modelos fixos de comportamento de gênero. Se num outro momento, as bases do masculino e feminino pareciam ancorados, plenos, na quebra da ideologia de uma época, algo que uma ruptura na sexuação tornou-se evidente.

É óbvio que fazer esta relação linear entre economia mundial e sexualidade parece forçada. Mas, é preciso subverter um pouco o enunciado, forçá-lo, para depois, torcê-lo. Quando sugiro essa relação, estou, em verdade abrindo  a brecha para pensarmos em regulação social. Quem aqui ainda não foi apresentada a idéia de androginia fashionista? Está para todos: o vestuário hoje se universaliza. Porém, pensá-lo a partir da democracia contemporânea e esforços singulares de estilistas históricos me parece simplista e até obsceno. Estilistas tem uma perspectiva e estão SEMPRE mordidos por um sentimento da época.

90 é a época. Reestruturação produtiva é a economia trabalhista. Capitalismo global é o projeto civilizatório. Se, até então, a regulação social – entenda moda enquanto fenômeno dentro desta regulação – capitalista x socialista favorecia um masculino e feminino marcados, no “sem fronteira” hegemônica do capitalismo, isto já não apresenta as mesmas bordas. O que está em jogo aqui é a alteridade. Que alteridade a democracia global oferece?

O primeiro momento, como qualquer instante angustiante de perda de referência, adveio com as guitar bands masculinas e as tomboy bands femininas. Não virilidade masculina e feminino ora a mercê de uma promiscuidade desnorteada, ora como afirmação masculinizada. Mas, veja bem, quem agüenta tanta instabilidade? Há de se produzir uma outra resposta que não tangencie tão ameaçadoramente o suicídio, o tédio niilista e a destrutividade. “Grunge is dead”, já estampava em sua camisa Kurt Cobain. Não espere do grunge uma afirmação representativa da geração: este movimento aponta, fielmente, a ausência de uma regulação, e a diz gritando, retornando ao feto, demandando um outro espaço. Mas foi de lá onde o sol existe e é quente que a década respondeu com mais entusiasmo e ressaltando um possível prazer.  “Smoke some pot, have some fun”.

Se a década de 90 é reconhecida como o espaço onde metaleiros, punks e hippies podiam se encontrar no mesmo ambiente, e Novoselic, em entrevista jocosa, ressalta que a “pot circle” favoreceu a união dos guetos, a California foi o exemplo inquestionável da mistura. Skatistas, metaleiros, groove people e surfistas, todos submetidos ao novo império desreferenciado. “Destruir pode ser mais agradável que sofrido”, respondiam aqueles da costa mais quente. À noite, todos vão aquele show daquela banda, num porão, preferencialmente, onde o consumo de heroína articulava-se a diversão escapista. Maconha no pôr do sol, ácido à noite com os amigos. Há, visivelmente, o retorno de uma psicodelia funkiada, doidona e suingada, que se misturava a um life style esportista. Parece contraditório, huh? Mas é só olhar pro pessoal do Red Hot Chili Peppers e Faith No More para que esse preconceito seja alvejado.

Se o que pode dar fim a angústia é o ato, como afirma Lacan, este ato não necessariamente precisa ser tão vinculado à pulsão de morte. Evidencia-se, assim, ainda na primeira metade da referida década, o surgimento de um novo comportamento e modo de ser , californian mood: não tão sofrido, e a procura de formas de diversão. A estética dessa turma era mais alegre e sugerem sempre festas nas praias, romance de fim de tarde e uma toxicomania, ora apavorada, ora naturalizada. A indumentária despojada era permissiva: dreads conviviam com tinturas nos cabelos, reinventando o visual hippie-surfer, o xadez vem com as mangas cortadas e o jeans agora é um bermudão rasgado, surrado de tanto usar pra andar de skate, reinventando o próprio grunge, e uma psicodelia vem funkiada, dando movimento negro à parada.

É. Prazer e morte se mostraram como maneiras de enfrentar o desbussolamento da década. Passado o começo de um tom mais depressivo, niilista, de uma discussão de gênero desesperada em que a confusão de comportamento de homens e mulheres se mostrava à frente da cena, pautada na autodestruição e questionamentos despropositados, sem esperança de resolução, o californian mood – making rock surge abraçando várias tribos, multiferenciada e criando uma estética inovadora, torcendo a angústia em confronto com a lei e poesia urbana ensolarada. Um tanto mais prazerosa.

Pode voltar a ir trabalhar com calça de pijama?

*Pra quem ainda não conhece, COTELGRAMPS é nosso colaborador especial para assuntos ligados à moda, música e comportamento. Ele também colabora para o Cool in the Heat, blog sobre moda masculina, e é trendhunter no site Neonico. Para ver mais imagens ilustrativas desse post é só visitar o seu blog, e você também pode segui-lo no twitter @cotelgramps

3 Comentários leave one →
  1. leo amaral permalink
    julho 12, 2010 1:57 pm

    Cotel mesclou bem erudição e um ar pop nessa análise dos anos 90. Pra mim é um aprendizado ler sobre o tema, minha adolescência tb foi nos anos 90, mas vivi uma perspectiva totalmente distante do rock. Sinto que perdi muita coisa, hehehe

  2. julho 21, 2010 4:05 pm

    Ótimo texto!
    Artigo muito bem elaborado!
    Parabéns!

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