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“iRealismo” ou “Por Onde as Roupas nos Levam”

junho 27, 2010
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É difícil encontrar entre nós alguém que  nunca tenha desejado  morar em um filme. Sem dúvida, existem muitos motivos pra isso mas acho que os principais são o desejo de fugir de certos limites impostos pela realidade  e o  interesse pelo universo de possibilidades que certas histórias nos fazem supor.  Falei dos filmes porque eles têm uma participação mais forte na formação desta nossa geração, mas o mesmo exemplo se aplicaria – claro – a livros e (por que não?) a fotografias, pinturas, videoclipes.  O narrativo e o pictórico podem ser mesmo indissociáveis e, se separados,  eles têm o poder de nos apresentar e seduzir para um mundo possível, juntos eles podem ser mais que arrebatadores. Eles podem nos aprisionar.

Sinto saudades de filmes, recentemente assisti ao A single man do Tom Ford e sempre me pego sentindo saudades dele. Não é exatamente um desejo de rever, é mais sobre a sensação de estar dentro do filme;  talvez se trate do enlevo. Acontece uma coisa parecida com os filmes da nossa infância, por causa do encanto que sentimos quando os vimos pela primeira vez e que hoje  eles já não nos causam mais. Existe, por exemplo, um descompasso entre  a minha memória das imagens do Alice no país das maravilhas da Disney – que vi na infância – e o filme como ele realmente (?) é quando o vejo hoje. Exemplos não faltam: Star Wars, Os Goonies, Conta Comigo, os Batmans do Tim Burton. A perda da ingenuidade traz essas outras perdas irrecuperáveis,  mas felizmente a memória também pode nos libertar da realidade.

Se quando éramos crianças isso era quase tudo que tínhamos, hoje – como fez com quase todo o resto – a internet mudou a forma como nos relacionamos com isto que vou chamar aqui de “memória do enlevo”.  Às vezes chamamos de estética a forma como um conjunto de artifícios poéticos funciona dentro de uma obra. Só para continuar aqui repercutindo Umberto Eco, ele mesmo disse alguma coisa no sentido de que a produção na indústria cultural tende a transformar forma em fórmula. É isso que reconhecemos quando falamos de uma “estética tarantinesca”, por exemplo – sendo esse tipo de associação ainda mais recorrente no repertório indie/alternativo.

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–  Internet & Escapismo –



As possibilidades trazidas pela internet nos permitiram reconhecer cada vez mais a influência que as saudades do enlevo têm sobre a produção dos artistas (uma vez que também nos possibilitou acesso a um volume muito maior de material). Mas isto é uma coisa  que poderíamos chamar simplesmente de “influência” – contemplando um número maior de possibilidades. Enfim, esta mistura de aumento da produção, compartilhamento de informação, reconhecimento de cânones e repetição de padrões nos deu um novo repertório de atmosferas, que podemos entender como estilo, estética ou padrão de gosto (o tempo dirá). Só para ilustrar, podemos falar aqui dessa cultura de “coisas fofas”,  singelas, alimentadas por sites como We Heart It. Estou falando de cupcakes,  músicas delicadas tocadas em ukeleles, frames de filmes românticos (principalmente indie-romântico como 500 dias com ela), flickrs com fotos me moças de cabelo comprido com roupas leves em lugares bucólicos, pequenos mantras escritos com helvética sobre votos vintage. A caracterização, apenas dessa ambiência, seria muito extensa; e há ainda muitas outras. Me pergunto quando e onde isso começou, senão na internet e quantos outros segmentos desse tipo  ela ainda conseguirá abarcar.

Acho que podemos dizer que alguém que assistisse a O Fabuloso Destino de Amelie Poulan, caso ele tivesse sido lançado em 1973, e se encantasse pelo filme teria que se conformar em  apenas sentir saudades do enlevo; no entanto hoje, esse mesmo espectador poderia encontrar na internet, em sites, flickrs, fóruns e tumblrs, outras formas de se conectar com essa experiência e transformá-la em outra coisa (quem sabe essa mesma pessoa não se sinta estimulada a publicar também algo). Não é que antes não houvesse esse tipo de desdobramento, podemos falar por exemplo de filmes como Rock Around the Clock ou Juventude Transviada que realmente causaram impacto nas sociedade, influenciando o comportamento e os valores da juventude; mas hoje a internet permite uma maior segmentação, uma adesão que não depende de um fenômeno tão grande quanto foram esses seus predecessores que precisaram chegar ao status de verdadeiros marcos dentro de uma cultura hegemônica como a cultura pop.

Hoje, por mais obscuro que ele seja, é possível transformar o filme da sua vida em seu estilo de vida, através do contato com outros fãs, do comércio online e dos “subprodutos” gerados a partir de sua influência. Outro dia, vi na TV uma garota tentando explicar o que era um Otaku; quando perguntaram se aquilo era “um estilo de vida”, ela não soube responder. Acho que isso explica bem a situação porque  a  segmentação da cultura,  o aumento do acesso à informação e produção,  a cultura do compartilhamento e ainda a “indústria do comportamento” nos conduzem a lugares onde os limites entre gosto e performance (vida X obra RS) se confundem – e nos confundem – bastante.

Vale ressaltar que só faz sentido se apegar a alguma dessas “estéticas” tornadas possíveis pela internet na medida em que elas se diferem do “mundo real”/ discurso hegemônico. Mas se, em certa medida, toda a nossa cultura é uma cultura da imaginação (os nossos prédios, as nossas roupas e até utensílios que usamos foram, antes de qualquer coisa, imaginados, por outro lado, seja por sua completa fusão com a vida pragmática ou por se repetirem ao ponto até chegar à banalidade, muito do que foi produto de nossa imaginação acabou se transformando em pura representação da realidade (talvez em seu sentido menos fascinante).

Se esse pensamento já parece confuso dentro do contexto do capitalismo pós-revolução industrial, da produção em série, do design e do consumo em massa (todos completamente circunscritos à materialidade); nos dias de hoje a possibilidade de “viver” no mundo virtual – onde a imaginação pode ser muito mais presente e  intensa –  cria novas tensões entre o que pertence à ordem do real e o que está no nosso imaginário.


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–  Onde está o real? –

Um ponto importante nessa discussão é definir o lugar da realidade. Se numa abordagem filosófica (coisa que eu nunca cheguei a entender como deveria) chamamos de real “tudo o que existe” e então  partimos para o conceito de existência, para então começarmos a  diferenciar os seres dos entes [reitero aqui que entendo quase nada dessas coisas e deixo o convite a quem quiser se pronunciar a respeito. precisamos saber], numa acepção mais comum – a do dicionário priberam. rs] encontramos a seguinte definição do real:

real
(latim medieval realis, -e, de res, rei, coisa)

adj. 2 gén.

1. Que existe de facto. = efectivo!, verdadeiro ≠imaginário, irreal

2. Que tem existência física, palpável. = concreto ≠abstracto!

3. Que é relativo a factos ou acontecimentos. =factual

4. Que contém a verdade. = genuíno, verdadeiro ≠artificial, falso, ilusório

5. Dir. Relativo a bens ou coisas e não a pessoas. =material

6. Econ. Que não corresponde a um valor definido e tem em conta, por exemplo, o poder de compra e a inflação (ex.: salário real). ≠ nominal

s. m.

7. Aquilo que é real. = realidade”


É importante percebermos como a idéia de real no senso comum está limitada ao que é material e enfatiza a negação do imaginário. E se a nossa incipiente convivência com a internet está derrubando  a idéia de oposição entre real e virtual, ainda resta mesmo assim essa espécie de desmerecimento do valor do imaginário na nossa construção da realidade.  Será que poderemos conviver muito mais tempo com um conceito de realidade que produz dois opostos (virtual e o imaginário) e nenhuma alternativa?

Tenho a impressão de que começamos a entender que realidade, imaginação e virtualidade não só podem,  como devem ser articuláveis já que certas coisas passaram a fazer parte de nossa realidade unicamente no sentido virtual, e a internet deu um novo poder de conviver com elementos imaginários  – sagas como Harry Potter, Crepúsculo ou  séries de TV como lost ganham um novo poder graças ao mundo virtual e se fazem mais presentes em nossas vidas até do que pessoas próximas;  já nossas conversas online, o envolvimento que criamos com a vida de alguém através dos relatos em um blog, o nosso comprometimento com a fazendinha do facebook ou do Orkut, os memes tão comentados e que introduziram novas piadas e um senso de humor diferente em nossas vidas  passaram a fazer parte de nossa realidade ; e tudo isso acontece  sem encontrar reflexo no mundo material.

– Pensando  de Verdade –

Algo que pode nos ajudar bastante a entender a enrascada em que nos metemos é o conceito de hiper-realidade , obrigatório para quem for avançar nesta leitura e de cujo resumo eu não tive coragem de selecionar nada para reproduzir aqui porque pode ser muito perigoso fazer a síntese da síntese.

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§
Falando finalmente de moda…

…podemos dizer que ela oferece possibilidades interessantíssimas de experimentação neste quase inédito trânsito entre essas instâncias da nossa percepção / ou da nossa mente. Primeiro devemos pensar que a roupa como consumimos hoje é um legítimo fruto da imaginação, no caso a do estilista. Quem acompanha moda pode, por exemplo, conhecer  o que vestirá já em um desfile,  onde ela vem usada por uma determinada pessoa, em um cenário estudado, acompanhada de uma música; depois ela passa a aparecer em editorias e começa a ganhar novos significados e leitura. Se ela passar a fazer parte do guarda roupa de uma pessoa notória ou  do figurino de um clipe /filme, já temos novos sentidos agregados à ela, seja da atmosfera do filme, da personalidade do artista ou a simples glamourização. Há ainda o exercício de  localizarmos essa peça dentro da história da moda – se estivermos falando, por exemplo, de uma peça revitalizada por uma nova leitura, ainda há mais sentidos para explorar –  e logo começam a aparecer as referências: filmes antigos, fotos de época, ídolos de outros tempos. Quando chegamos a falar em tendências, vêm as aparições em blogs de street style, em sites de documentam a vida noturna, nos diários fotográficos das pessoas que ditam moda; até que finalmente a roupa aparece nas lojas dedicadas a um público comum.

Toda essa trajetória possível – somada aos outros  jeitos de se usar e onde pode vir a aparecer – colocam a roupa em um lugar privilegiado do nosso imaginário.  Ela se transforma – mais do que um objeto de desejo – em um produto de um sonho, em parte de uma fantasia, fazendo um consumidor menos apressado poder vir a ter a legítima sensação de que foi de lá, dos seus sonhos, que aquela bolsa Birkin veio ou de onde aquela jaqueta perfecto saiu diretamente. Essa roupa pode ser quase um souvenir de um (ou de todos) os mundos possíveis dos filmes, coleções e histórias (reais ou nem tanto) que acompanhamos. Ela ocupa simultaneamente  um lugar que existe no mundo material e na nossa imaginação, e traz consigo uma atmosfera lúdica, nos inspira algo …e também existe no mundo virtual onde podemos aparecer com ela, ou simplesmente admirá-la, mesmo sem ter. Este tipo de roupa se torna “supra-real” (acabei de inventar isso, não é serio) ou hipertextual pelo menos (será que hiper-real?  parece que sim, mas não apenas por isso) e é como uma chave  (um link? rs) que nos permite transitar entre todas essas formas de apreender e conviver com uma idéia. A roupa nos religa com a nossa própria imaginação, remete a imagem virtual que fazemos dela – muita vezes à própria origem do desejo de tê-la, que pode nascer na internet – e, afinal de contas, está conosco fisicamente. É por ser este amuleto que, mais do que nunca, a roupa é mágica.

p.s. estava, na verdade, tentando escrever sobre outra coisa e sinto que não cheguei ao ponto em que queria. este texto acabou servindo mais pra esclarecer certos pressupostos e eu poderia quase me desculpar com vcs por ele. mas taí! abraços a todos.

6 Comentários leave one →
  1. junho 27, 2010 12:57 pm

    concluir é coisa de quem ve filme americano ou acredita que é feliz. muito bom o texto, complementaria com um comentario extenso sobre como imaginario, real e simbolico se enlaçam, mas deu preguiça – e as vezes falta compreensao mesmo, minha.

  2. __felix permalink*
    junho 27, 2010 2:06 pm

    brigado rogério, vc é nosso melhor e favorito visitante! prefiro q vença a preguiça, mas sei que é uma cilada começar a falar disso. tive que resistir p n falar do que tb é “lúdico” nessa história toda. qto menos coisas sem limites muito definidos pra ter entender e diferenciar, melhor, nesse caso.

    mas não troque de canal pq depois dos comerciais elas vão se encontrar numa sala, cada um com uma arma. quem saira vivo? NÃO PERCA!

  3. junho 28, 2010 11:01 pm

    Muito interessante também como essa facilidade da experiência da Internet possibilita infinitas mudanças no que as pessoas definem como seu ‘estilo-de-vida’, adaptando-se mais rapidamente aos novos estímulos e abandonando o ‘estilo-de-vida-da-semana-passada’.

    Ótimo post! :)

    • __felix permalink*
      junho 29, 2010 11:35 am

      brigado! eu mesmo me sinto muito como uma dessas pessoas que moram na internet e e tenho certeza de que a minha vida seria muito diferente sem ela. só são sei como, mas gosto de achar que tá nos fazendo bem.

  4. junho 30, 2010 12:19 am

    ácido, felix

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