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quem ainda quer novidade? – edição ilustrada

maio 30, 2010
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*vim aqui republicar esse texto para que ele possa desfrutar da maravilhosa e oportuníssima companhia dos rapazes do vampire weekend no clipe de holiday,  que acho bastante ilustrativo de várias questões da moda como convenção e reflexo do tempo.  mas não pensem que acabou, ainda quero falar mais disso, já no próximo post.

existe uma piada manjada em histórias em quadrinhos e desenhos animados: mostrar o guarda-roupa do protagonista repleto de roupas iguais. me lembro de ter visto pelo menos o da mônica e o de doug funny (revi outro dia aquele episódio de “doug” – que a cultura está reprisando – em que o look dele vira tendência por causa de um seriado adolescente. é ótimo, principalmente se você pertence à faixa etária que eles supõem para o espectador).

ainda no território das referências infantis, me lembro de uma fala de um filme desses da sessão da tarde em que a mãe reclama com a filha, dizendo que ela leva sempre o mesmo sanduíche pro lanche. guardei a garota pra sempre quando ela respondeu que não tinha culpa de saber do que gostava.

não sei se vocês, amiguinhos, viam desenhos e filmes muito diferentes dos meus (ou cresceram em um universo paralelo em que Andy Warhol não existiu), mas eu cresci assim, com esse amor pela repetição. na moda, no entanto, esse valor se articula de formas mais sofisticadas do que a mônica pôde nos ensinar, afinal, estamos falando de um mundo que se refaz através das novidades. mesmo assim, em mais uma dessa manobras deliciosas, a moda se faz e refaz, e se perpetua também através da redundância.

me perdoem, talvez eu esteja confundindo as coisas. acho que preferia estar falando de “estilo”. esse sim, mais do que qualquer outra coisa, só existe se rearfirmado. no entanto, além de se cobrar estilo das pessoas, também se espera um mínimo de variedade. e é justamente contra essa expectativa que eu queria depor.

acho que quem gosta de moda e também de cinema ou literatura sempre acaba desenvolvendo uma certa paixão pelo lugar que a roupa ocupa na narrativa. pulando exemplos clássicos, como Cinderela ou o moderno-e-obrigatório “O diabo veste prada”, quero falar aqui de MATRIX.

estou muito longe de ter a competência necessária para dissecar a poesia que esse filme imprime no vestuário, mas acho que em uma breve revisão vocês podem perceber isso sozinhos. vamos só lembrar da “woman in red” caminhando no meio de uma multidão de engravatados. meu aspecto favorito do uso da indumentária nessa história, além do contraste entre os mundos “real” e “virtual”, é essa possibilidade de ter uma “configuração na matrix”.

enquanto no mundo real a escassez faz com que a roupa sirva quase somente para cobrir e proteger os corpos, na matrix ela é uma espécie de projeção do caráter deles na sua jornada (notem que ela não muda, e é quase tão incorruptível quanto seus caráteres).

gosto muito de como isso aparece no início do filme porque geralmente não me envolvo nos mistérios que as narrativas tentam emplacar (a mágica quase nunca acontece). só que nesse caso, aconteceu. e eu sei que muito da culpa disso é daquele figurino, principalmente o da trinity. é impossível não se perguntar: “quem são essas pessoas?”. nessa hora a roupa já tem um papel fundamental na história, e depois ele aumenta. gosto muito dessa metáfora do estilo como “configuração”.

outro dia, vendo um desses programas femininos, vi uma apresentadora preocupadíssima em dar dicas para ajudar as mulheres a não repetir roupa. de repente, me senti atirado ao século XVIII, pensando em como seria plausível pensar nisso como um daqueles infinitos maneirismos da corte francesa. acho que eles também não repetiam roupa por lá. mas acho tão oportuno que – em um mundo que parece estar acabando e que as pessoas estão cada vez mais preocupadas com reservas de matéria prima e sustentabilidade – as pessoas passem as usar mais as mesmas roupas. até porque, eu sei quanto tempo se leva pra uma garrafa pet ser decomposta, mas e uma calça jeans? e uma jaqueta de couro? e um vestido alexander mcqueen?

além do mais, todos preferimos pessoas menos esquizofrenicas. não sei de onde foi que tiraram isso de que roupa tem que refletir seu humor. se isso for verdade, eu tenho pena de pessoas bipolares e com transtorno de personalidade. não deve ser legal sair por aí carregando várias mudas de roupa. acho bom que a ela reflita quem somos, numa perspectiva mais “existencial” (sinta-se desafiado a encontrar uma frase mais absurda na internet, hoje).  é claro que isso dá mais trabalho, porque envolve não só fazer essa pergunta pra nós mesmos, como PESQUISAR/ENTENDER na moda o jeito de “CONFIGURAR”/CODIFICAR.

seria mais interessante pensar o nosso guarda roupa mais ou menos como um estilista pensa uma coleção, como se aquele conjunto construísse um personagem (que, nesse caso, seria bom que correspondesse a quem somos, ou pelo menos a como gostaríamos de ser vistos – seguindo expectativas mais ou menos razoáveis de construção de uma aparência, sempre bom lembrar).

ter mais dessa “substância” pode ser uma característica muito mais interessante do que uma infindável sucessão de novidades no shuffle – que é mais ou menos o que acontece com todo mudo que se veste,  principalmente com quem segue tendências aí, a torto e a direito. é claro que nesse assunto tem muito mais coisa pra ser levada em consideração e que se vestir seguindo esses critérios envolveria muito mais tempo, dedicação, dinheiro…  mas se você está lendo esse blog é porque você se importa com o assunto, né?

talvez o mundo não deva ser mesmo desse jeito e as pessoas nunca se vistam pensando assim. de qualquer forma, essa pode ser uma idéia boa de se ter em mente.

meu voto é pra que todos encontrem a secção áurea do seu estilo, independente do clima, povo ou da época em que precise encontrar suas referências, e passem a se vestir rigorosamente da mesma forma, com pequenas variações de cor e combinações, em um eterno cosplay do próprio espírito e essência, transformando a paisagem num imenso carnaval-fora-das-épocas, até que todos sejamos mortalmente feridos pelo tédio de ser  tão a gente mesmo. e, mesmo assim, seremos todos inocentes, já que, afinal, ninguém tem culpa de saber do que gosta, né mesmo?

6 Comentários leave one →
  1. maio 30, 2010 7:43 pm

    Felix, isso é amor. Mas lhe questiono- em tom provocativo – pode-se, ainda na contemporaneidade, pensar em termos de identidade, caráter, “ego/eu”? Me parece que a multireferencialidade e mesmo a unicidade do “coisa alguma” é o imperativo da época. Nessa linha – ou partido, lado negro e pessimista das forças – pensar no guarda-roupa da Mônica é de uma nostalgia tão grande quanto acreditar na democracia e fortalecimento nacional na globalização.
    (e no fundo mesmo acho que isso tudo se complementa, vamos dividir um bife?)

  2. __felix permalink*
    maio 30, 2010 8:13 pm

    rogério, não dificulta pro meu lado!

    . n sei se pode, mas eu ainda me apego. só divido, por exemplo, bifes metafóricos pq não como carne e – gosto de achar – isso ajuda a definir minha identidade (rs). acho que é por isso que disse o que disse, acho que o “ego/eu” ainda é uma idéia tão necessária quanto, sei lá, deus. e isso independe de elas encontrarem algum referente na “realidade”. sinceramente, não sei te responder, não sei nem s econsigo entender a sua questã! rs. só concordo DEMAIS com suas dúvidas.

    já a preferência pélo armário da mônica (e o do doug?), acho que não precisa vir com esse sabor de nostalgia, tlz pq ( tb gosto de achar) as preferências (muito às vezes) podem não se relacionar tanto assim com o tempo – nem com o passado nem com o futuro. penso, por exemplo, em gente que prefere casar virgem! rs. hj tá meio desfavorecido né… porém não tenho dúvidas (estando elas mais conectadas com qq época q seja) que essas idéias sobre vestuário não se inserem minimamente no nosso contexto atual. porém , como eu disse, acho uma coisa boa de se ter em mente, nem que seja pra relativizar, tanto nós mesmos qto nossas escolhas nesse, mas principalmente, em outros âmbitos ( mais risos aqui)

    só pra terminar, acho que vc parte dessa questão pra chegar a um ponto em que eu me situo bem menos que vc. mas que se situa bem, não é mesmo? ainda mais com faustão gritando, falando de fox-trote (nem sei como escreve)

  3. __felix permalink*
    maio 30, 2010 8:36 pm

    em tempo: em algum momento nessa confusão me pergunto se a repetição e a corrida pelo novo não podem chegar tb a ser equivalentes, em termos do esvaziamento do sentido. pensando -claro – q tudo depende tb de quem faz. mas eu acho bastante provável {só pra deor um pouco mais contra mim}

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