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Casa de Criadores e a expectativa do Novo

maio 27, 2010

Gêmeas verão 2011

A Casa de Criadores surgiu em 1997, quando um grupo de estilistas, em parceria com o jornalista André Hidalgo, percebeu a necessidade de haver um espaço para a promoção de suas criações. No decorrer dos anos, o evento foi se tornando uma incubadora de novos talentos, revelando grandes nomes da moda brasileira, como Marcelo Sommer, Ronaldo Fraga e André Lima. Na sua essência, a Casa de Criadores é o lugar onde o estilista pode exercer de forma livre a sua criatividade, aprimorar sua técnica, ousar e experimentar.

Eu acompanho o evento há dois anos, ou seja, há apenas quatro temporadas. De lá pra cá, minhas maiores expectativas sempre foram em torno do Projeto Lab, uma espécie de incubadora dentro da incubadora. Nesse projeto, são escolhidos cinco novos estilistas que mostram coleções pequenas. Quando eles estão mais preparados, começam a desfilar solo. Por serem nomes completamente novos, nunca temos muita noção do que esperar, então há sempre aquela vontade de ser surpreendido por algo novo e inesperado. Não é aqui o momento de analisar o apuro técnico, mas de vislumbrar nomes verdadeiramente criativos.

Foi nesse sentido que a grande revelação dessa 27ª edição da Casa de Criadores, que aconteceu de 24 a 26 de maio, foi a sul-coreana Yoo Hee Lee. Conservando uma inocência e um frescor que a gente não costuma mais ver muito por aí, a jovem estilista criou uma coleção bastante complexa com o tema “viagem astral”. Como bem apontou a jornalista Ale Farah, ela já pode ser considerada o maior destaque conceitual da Casa de Criadores desde Karlla Girotto. As peças descolando do corpo e toda a construção detalhada deu aquela instigada no olhar e uma vontade de ver mais de perto modelo por modelo.

Yoo Hee Lee verão 2011

Desfiles como esse nos faz lembrar do intuito inicial de tudo isso, da necessidade de criação de novas propostas para injetar energia e fazer a moda ir pra frente. Sou da turma que acha que desfile é para nos surpreender, para nos maravilhar, para ser um pequeno espetáculo. Acho que quem tem uma proposta puramente comercial, sem acrescentar nada de novo, não precisa estar num evento como esse, deve fazer um showroom.

Além da Yoo Hee Lee, dentro do Projeto Lab vale a pena destacar também a Juss, marca da Juliana Souza, a gordinha mais fofasimpáticalinda do mundo. Primeiro porque é bem raro ver uma mulher se aventurar na moda masculina; segundo porque, através desse primeiro desfile, deu para perceber que ela ainda tem muito o que mostrar mais a frente.

Juss verão 2011

Dos estilistas que saíram do Projeto Lab do ano passado, Jadson Ranieri foi o que se mostrou mais preparado para encarar uma primeira grande coleção. Com resoluções sempre bastante interessantes para suas inspirações, o estilista pernambucano já se coloca entre as grandes revelações da Casa de Criadores. O tema dessa vez foi a androginia e os limites entre o masculino e o feminino.

Jadson Ranieri verão 2011

Também gostei bastante da coleção do R. Rosner, mas sinto que as vezes ele é um pouco mal compreendido. Pra quem não sabe, Rosner faz roupa de festa, daí todo o drama e os excessos contidos no seu trabalho. Acho muito ousada a forma como ele trabalha com o vestido de festa, dando a essa peça tão tradicional um toque super moderno. Olha como esses capacetes brancos lembram o futurismo dos anos 60, grande sacada.

R. Rosner verão 2011

Depois de tanta coleção inspirada em culturas longínquas (Hungria, Egito, etruscos), Gustavo Silvestre nos fez lembrar que estamos no Brasil, levando para a passarela uma coleção inspirada no carnaval de Olinda. Toda a profusão de cores, apesar de alguns momentos confusos, veio em uma boa hora, mostrando que ainda dá para buscarmos o tal dna da moda brasileira.

Gustavo Silvestre verão 2011

Dos já tradicionais, gostei de como essa nova coleção das Gêmeas se integra bem com seus últimos trabalhos, formando um conjunto bastante coeso. E, como não poderia deixar de ser, Walério Araújo provou mais uma vez que vale a pena ficar até o final para ver o seu desfile. Comemorando seus 40 anos, o estilista convidou amigos, entre famosos e desconhecidos, para subir a passarela e acompanhar seu show. Assim, a Casa de Criadores terminou em grande festa, dando o start para a temporada de moda verão 2011.

Walério Araújo verão 2011

O enxugamento do line-up fez toda a diferença, concentrando mais o evento e tornando-o mais dinâmico. Ainda sinto falta de mais surpresas,  mais estilistas mostrando que realmente estão aí para inovar, mas a entrada da Yoo Hee Lee já indica que esse é o caminho que deve ser seguido. Saldo positivo.

*Todas as fotos foram tiradas daqui.

8 Comentários leave one →
  1. maio 27, 2010 7:04 pm

    Com exceção de Jadson Ranieri, que não gostei do visual do desfile, concordo em gênero, número e degrau. E achei ótimo seu balanço.

    Me impressiona que o grande destaque dessa edição tenha sido justamente uma sul coreana, mas vi a moda brasileira muito bem destacada nos desfiles. Acho essa questão do dna extremamente importante. É cada vez mais comum os estilistas brasileiros seguirem os caminhos europeus e isso acaba resultando em coleções sem sangue brasileiro e muitas vezes fora do contexto climático-tropical daqui.

    Eu gosto da Casa de Criadores porque é mais leve, menos pretencioso, menos comercial, principalmente agora com um line up mais apurado, mostra que o foco continua sendo mostrar o que os novos talentos tem pra dizer, sem aquele clima todo poderoso de semanas de moda.

    Achei uma edição muito boa.

  2. maio 27, 2010 7:39 pm

    Aaaai que coisa boa esse texto. Quanto aos desfiles, eu também senti falta de mais experimentalismos. Algumas surpresas interessantes, mas a maioria me pareceu muito normal, com styling comercial e etc.

  3. maio 27, 2010 8:06 pm

    Resumo ótimo, Aline. Eu não sabia que a Casa de Criadores já tinha acabado (aliás, só descobri hoje que o Fashion Rio começava… hoje) então é bom ler sobre tudo que aconteceu em apenas um lugar, de maneira tão bem escrita.
    Gostei muito da Juss, porque embora eu comente pouquíssimo sobre, gosto de moda masculina. E verei o desfile da Yoo Hee Lee mais de perto amanhã, com mais calma, pois conceito não se entende de uma tacada só.
    E concordo contigo no que toca ao caráter experimental do evento. Eu não sou acompanhante assídua, portanto não posso dar opiniões realmente sólidas a respeito de nada. Mas, de tudo que já vi desde que comecei a ‘acompanhar’ moda (há 2 anos), a criatividade tem muito mais vez aqui do que em qualquer outra semana. E, sinceramente, acredito que eventos assim são válidos exatamente por isso; a moda é feita pra fazer pensar e sentir, e não apenas desenvolver o desejo de comprar.
    Beijos!

  4. maio 28, 2010 4:05 pm

    Adoro ver as caras novas e o que eles trazem de novidade para o circuito!

  5. maio 29, 2010 1:32 am

    Otimo o seu resumo sobre o evento.Super preciso!!

    BACI DA ROMA

  6. Aline Bessa permalink
    maio 30, 2010 10:55 am

    Emocionantes esses trabalhos da Yoo Hee Lee…

Trackbacks

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