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Dior: surge um novo estilo

maio 10, 2010

*Domingo, 16 de fevereiro de 1947

Fazia um frio fora do comum na manhã da última quarta-feira. Com o suprimento de carvão em baixa e a temperatura lá fora a treze graus abaixo de zero, era difícil aquecer o salão número 30 da Avenida Montaigne. Mas o frio não foi suficiente para espantar a multidão que se aglomerava na porta do edifício. Uma hora antes do grande show, uma escada, retirada de uma construção próxima, foi apoiada à janela do térreo e diversos jovens subiam e tentavam entrar a força. Convites para o evento eram tão desejados que foram até vendidos no mercado negro. Christian Dior, no alto de seus 42 anos, iria apresentar sua primeira coleção, intitulada Corolla – uma metáfora para a forma como seus vestidos e suas modelos se assemelham a flores brilhantes e naturais.

A expectativa no interior do salão era grande. A decoração minuciosamente preparada inspirava elegância e audácia. Exuberantes arranjos de flores, dispostos por todo o salão perolado, exalavam o novo perfume Miss Dior. Rita Hayworth, Doris Duke, Lady Diana Cooper, Annabella, e uma horda de jornalistas e revendedores foram educadamente recebidos na entrada por funcionários em uniformes pretos bastante vistosos. Com todos sentados em seus devidos lugares, ainda se ouvia burburinhos ecoando pelos cantos. “Como é mesmo que se escreve o nome dele, ‘Diaure’, ‘d’Yorre’?” – perguntou uma distinta senhora. Outra falou em tom de pouco caso: “É muita sorte ele ter encontrado em seu caminho monsieur Marcel Boussac – não fosse por ele, jamais haveria tamanha comoção por um desfile de alguém tão insignificante”.

Chegado o momento do espetáculo, Carmel Snow, editora da Harper’s Bazaar, sussurra, bastante enfadada: “Espero que isso seja realmente bom”. Um apresentador chama pelo nome a primeira modelo a entrar no salão, em francês e em inglês. No momento em que ela surge, o turbilhão de sua saia atira pelos ares os cinzeiros que estavam ao redor da passarela. As modelos seguintes mantêm o mesmo ritmo. Andam de forma arrogante, balançando os quadris com vastas saias, ombros suaves, cinturas marcadas por corpetes bem apertados, chapéus pequenos, amarrados por um véu abaixo do queixo. Elas rodopiam de forma altiva, com uma feminilidade que não se vê há tempos. Estupefatas, várias espectadoras vestindo saias curtas inconscientemente puxam para baixo as barras de suas saias. Nesse momento, Françoise Giroud, editora da Elle, comenta com Annabella: “Não poderemos mais sair nas ruas com nossas próprias roupas!” Foi uma apresentação teatral refinada de um estreante digno de uma grande casa de alta-costura.

A forma com que as roupas recaiam sobre os corpos das modelos realmente chamou a atenção. Os vestidos meticulosamente construídos em várias camadas de tafetá e cambraia foram encorpados com forros de tule. Alguém pensar em tamanha opulência em um país paralisado pelas greves é, de fato, uma ousadia. Lembremo-nos que aqueles metros de tecidos utilizados para fabricar uma única peça de roupa serviriam para vestir uma família inteira. A sensação foi de uma volta ao estilo da Belle Époque, à segurança e ao conforto daquele período de estabilidade e efervescência cultural. O misto de revolução e conservadorismo encantou todos os presentes.

A estrela da coleção é a peça Bar, composta por uma jaqueta em seda crua bem ajustada na cintura e com ombros naturais, e uma saia plissada de lã preta. A silhueta se assemelha a um oito, com o busto bem delineado, a cintura afinada e os quadris acentuados. Mas nem todas as saias da coleção são volumosas. Destaca-se uma vestimenta feita em crepe e lã na cor azul marinho, com uma saia justa, em alternativa às plissadas. Na jaqueta não há colarinho nem bolsos na região do busto, as mangas são compridas e o corte afina a cintura. Na paleta de cores predominam o preto, o cinza, o azul marinho e a seda crua.

Ao final do show – depois de uma salva de palmas e parte da audiência chorando de emoção – uma dezena de jornalistas se aglomerou ao redor do estilista. Snow passou na frente de todos e rapidamente parabenizou-o: “As roupas são maravilhosas”, disse ela efusivamente. “Você nos deu um new look“.

Dior, muito seguro de sua realização, defende que esse é o momento de superar a crise. “Nós estamos emergindo de um período de guerra, de uniformes, de mulheres-soldados, de ombros quadrados e estruturas de boxeador”, ressalta o estilista. “Eu desenho mulheres-flores, ombros suaves, cinturinhas e longas saias que explodem em volumes e camadas, como uma corola. Estou dando às mulheres o que elas querem”, diz ele sem nenhuma hesitação.

O caminho para a felicidade não é barato – cada modelo original custa, em média, a pequena fortuna de 250 libras.

*Esse texto surgiu de uma proposta de uma disciplina da minha pós-graduação de narrar um fato cultural que aconteceu antes de 1960, como se estivéssemos presentes na data escolhida. Eu escolhi o primeiro desfile de Christian Dior, que aconteceu em 12 de fevereiro de 1947. Apesar de, obviamente,  não estar presente no evento, todos os dados contidos foram baseados em intensas pesquisas em livros e matérias antigas de jornais e revistas.

8 Comentários leave one →
  1. maio 10, 2010 1:01 pm

    Nunca tinha lido um texto sobre o New Look tão maravilhoso, comovente e incrível como esse. Tu deveria ver meus olhinhos brilhando enquanto eu lia. Lindo!

    • alinebotelho permalink*
      maio 10, 2010 1:08 pm

      Obrigada, Thaís. Fico muito feliz que tenha gostado! Esse trabalho demandou bastante tempo, fiz com todo o cuidado e dedicação do mundo :)

  2. Flavia Zanella permalink
    maio 10, 2010 1:22 pm

    FATO! Senti necessidade de lhe dar os parabéns pelo excelente texto! Com certeza lhe garantiu uma boa nota né? rsrs

    • alinebotelho permalink*
      maio 10, 2010 1:25 pm

      haha sim, Flavia! O professor adorou e me deu um 10, fiquei feliz da vida :)

  3. maio 10, 2010 2:49 pm

    Belo texto,muito bem escrito. Parabéns Aline, pela sensibilidade e sofisticação da sua escrita.

  4. maio 11, 2010 12:27 pm

    Digo e repito, seus textos são uma delícia de ler!

  5. maio 18, 2010 5:11 pm

    Amei o post, Aline!
    Lembro de você perguntar se alguém tinha matérias ou textos falando sobre o New Look de Dior no twitter há uns tempos… o estudo rendeu muito bem. O texto ficou ótimo, dá para se sentir no dia mesmo!
    Beijos

Trackbacks

  1. Mad Women « /duodeluxo

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