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Moda, tendências e identidade

abril 26, 2010

Circus Artistes, 1926–32 by August Sander

You live wherever you live,
you do whatever work you do,
you talk however you talk,
you eat whatever you eat,
you wear whatever clothes you wear,
you look at whatever images you see…

YOU’RE LIVING HOWEVER YOU CAN.
YOU ARE WHOEVER YOU ARE

“Identity” …
of a person,
of a thing,
of a place.

“Identity”.
The word itself gives me shivers.
It rings of calm, comfort, contentedness.
What is it, identity?
To know where you belong?
To know your self worth?
To know who you are?
How do you recognise identity?
We are creating an image of ourselves,
We are attempting to resemble this image…
Is that what we call identity?
The accord
between the image we have created of ourselves
and … ourselves?
Just who is that, “ourselves”?

We live in the cities.
The cities live in us …
time passes.
We move from one city to another,
from one country to another.
We change languages,
we change habits,
we change opinions,
we change clothes,
we change everything.
Everything changes, And fast.

Esses versos são a introdução do documentário Identidade de Nós Mesmos (Notebook on Clothes and Cities, 1989), do diretor alemão Wim Wenders. No filme, Wenders conversa com o estilista japonês Yohji Yamamoto sobre processo criativo e reflete sobre a relação entre cidades, identidade e o cinema na era digital.

Não pretendo aqui fazer uma análise do filme – que na verdade é muito mais sobre cinema do que moda – mas falar de alguns pontos que me ajudaram na reflexão que eu estava desenvolvendo sobre moda e identidade ou, mais precisamente, sobre tendências e estilo próprio.

Segundo Wenders, identidade está fora de moda e, por definição, a moda está sempre na moda. Então identidade e moda são duas coisas contraditórias?

Surpreendentemente, Yamamoto revela no filme que uma de suas principais inspirações para suas coleções é a série de fotografias People of the 20th Century, do fotógrafo alemão August Sander. Neste projeto, Sander identifica “tipos” alemães e a relação entre a imagem e suas profissões.

Não há nada de muito fashion aí – pelo menos não para quem está acostumado a variação de estilos que a indústria da moda nos propõe – no entanto, Yamamoto vê no trabalho de Sander coisas que despertam sua curiosidade (e que acabaram despertando a minha também). Por exemplo, em suas fotos, as expressões e as roupas usadas pelas pessoas dizem muito sobre suas profissões e suas vidas, elas parecem carregar uma história, coisa que Yamamoto sente que não existe mais. Para ele, as pessoas hoje (lembrem-se que o filme é de 1989) nas cidades parecem todas iguais, não dá para distinguir suas profissões, elas não se vestem mais de acordo com o seu trabalho e sua história de vida.

É realmente incrível como a expressão facial dessas pessoas combinam tão perfeitamente com a roupa que elas estão usando, quase como se tivessem sido feitas para elas.

A foto abaixo é uma das favoritas de Yamamoto, não só pela roupa do jovem cigano, mas pela expressão de seus olhos e a maneira pela qual ele coloca suas mãos no bolso. Seu interesse é pelo aspecto utilitário da roupa, são seres humanos “vestindo a realidade”.

Esses retratos me fizeram pensar na questão dos uniformes, uma antimoda por excelência, que não tem compromisso com o novo, apenas com a tradição. Os uniformes têm a função de distinguir um certo grupo, de caracterizá-lo e diferenciá-lo dos outros. Através dele é possível identificar a profissão de alguém, seu status social, o lugar que essa pessoa ocupa na sociedade. Ao mesmo tempo em que iguala, também diferencia. Os códigos contidos nos uniformes são auto-referentes, seus símbolos são facilmente internalizados.

Essa questão do uniforme rendeu dois textos maravilhosos do Vitor Angelo (e também um ensaio no uol) onde ele aborda a forma como os uniformes podem dizer muito sobre o nosso tempo e os códigos da nossa cidade. E, indo mais além, fala como também os blogs de street style, como o The Sartorialist, acabam fotografando uniformes, em suas palavras, os uniformes dos fashionistas. “Em maior ou menor grau estamos todos uniformizados, pois através das nossas roupas passamos os mesmos códigos que os uniformes. Sim, passamos esses sinais da mesma maneira só que de um jeito mais sutil e nem com tanta literalidade como é o caso dos uniformes esportivos e escolares”, aponta.

Daí que me veio também à mente esse texto de felix sobre como a construção de um estilo próprio tem muito mais a ver com a repetição que com a novidade. É aquela diferença entre ter um estilo definido e se apropriar indefinidamente de tendências.

Acho que isso explica bastante porque os estilistas, pessoas que entendem tanto de moda, parecem usar sempre as mesmas roupas, quase como verdadeiros uniformes. Logo que pensamos em Karl Lagerfeld ou Tom Ford facilmente visualizamos uma imagem bem definida em nossa frente.

Fiquei pensando também em um fenômeno bastante novo, que vem acontecendo principalmente em Nova York, em que pessoas gastam uma fortuna em peças de segunda mão que, muitas vezes, estão rasgadas e sujas. Vi em algum lugar uma pessoa adepta desse “estilo” dizer que peças assim carregam uma história, elas estão impregnadas de sentimentos e valores. Eu não pagaria a fortuna que essas pessoas pagam por uma roupa usada, mas, como adepta de roupas de brechó, entendo bastante o significado por trás disso. Segundo Yamamoto: “Se você quiser realmente sentir o toque de um tecido tem que esperar uns 10 anos,  isso leva tempo”.

Então parece que a questão da identidade está muito mais ligada à tradição e, por consequência, ela seria mesmo quase que oposta à moda. Uma complexa e bela contradição: as novidades são necessárias para a evolução da moda, é através delas que organizamos e entendemos os momentos históricos, no entanto, nossas identidades estão ligadas à continuidade de nossas roupas. E antes que alguém compreenda mal, não, isso não é uma crítica à indústria da moda.

Pretendo voltar e amadurecer essa discussão mais adiante. Enquanto isso, super recomendo que todos vejam (e revejam) esse filme incrível.

14 Comentários leave one →
  1. abril 26, 2010 11:35 pm

    Amei teu raciocínio, Aline. Se pararmos pra ver, a moda está cheia de contradições (como o gosto pelas décadas passadas, por exemplo), mas mesmo assim essas contradições acabam por ser complementares à moda. E eu nunca tinha pensado em identidade dessa maneira, achei bem interessante.

  2. abril 27, 2010 1:12 am

    Nunca tinha percebido como as roupas usadas antigamente, sejam uniformes ou não, remetiam exatamente à personalidade ou profissão que elas exerciam. Nas fotos dá pra ver isso claramente, a gente pode perceber muita coisa do estilo de vida só pela roupa e expressão da pessoa..
    Hoje em dia é super difícil isso. As profissões não tem tantas restrições à vestimentas, os uniformes ficam cada vez mais escassos e as pessoas andam de forma um tanto ‘neutra’, que não transparesse sua profissão e vida. Em algumas pessoas expressam seu estilo e até personalidade, mas nada ligado à vida e profissão, né?
    E esse lance dos estilistas é algo que estava comentando esses dias com outras pessoas: vários estilistas andam sempre da mesma forma, parecem uniformizados mesmo…Super interessante!

    Beeijos

  3. abril 27, 2010 6:16 pm

    olha só como são as coisas neh… é assim mesmo a moda vai e volta…vai e volta, adorei a forma como você expôs o assunto, é uma forma muito inteligente de expressar a moda de antigamente, até os tempos de hoje…parabéns!;)

    beijinhosss

  4. abril 29, 2010 8:01 pm

    Muito interessante os pontos que você tocou.

    A questão dos uniformes é adaptável aos trabalhadores comuns (me incluo nessa), mas também ao nicho famigerado dos que trabalham diretamente com moda.
    Não só os estilistas têm um estilo pré-definido, mas as modelos também se vestem quase todas do mesmo jeito, e logo o resto da industria da moda que dita tanto as tendências e acaba sempre no pretinho básico (me incluo nessa again).

    Gosto também desse espiríto contraditório da moda. Faz virar um ciclo vicioso e acaba sendo o próprio alimento da sobrevivência.

  5. abril 30, 2010 3:23 pm

    ótimo texto.
    bom fim de semana,
    bjs
    Lucia

  6. __felix permalink*
    abril 30, 2010 8:15 pm

    eu acho simplesmente que a roupa é muito mais competente pra representar nossa identidade social do que nossa individualidade propriamente dita. muitas vezes caímos nessa armadilha da identidade como uma coisa idiossincrática, quando, nesse caso, a identidade é principalmente uma identidade social e, como tal, ela está submetida a convenções – por mais “estilo” que se tenha. se pensarmo a idéia de uniforme como “forma única” então ela se aplica a quase tudo (ainda mais pensando em termos de prêt-à-porter), estarímaos todos “uniformizados” mesmo. não dá pra comparara a liberdade de “ser” com a de “vestir”, pelo menos não falando em termos práticos e razoáveis. nem sei se a moda viria a ser um código rico ao ponto de podermos realmente expressar nossa identidade através dela. e, se viável, seria mesmo interessante? tipo, alguém ver sua roupa e poder ter já todo um discurso a seu respeito ( mais do que o que já se pode fazer hj)? ainda imagino certos tipos de ignorância como uma dádiva! rs

    os motivos dessa “descaracterização” das pessoas vêm tanto da competência da moda em emplacar, cada vez mais, um discurso hegemônico (ou pelo menos um certos número de discursos que compõem uma hegemonia), quanto da diluição da importância que antes se dava aos papéis que os indivíduos desempenhavam na sociedade. hoje as pessoas são mais identificadas por seus gostos e escolhas (tipo: emos, pagodeiros, manos, surfistas, patricinha, indies, playssons, hippies, BANDIDOS – rs – etc) do que por sua posição na sociedade. o que é estranhamente paradoxal é que, de certa forma, essas identidades nos pareçam mais vazias que as antigas.

    NÃO TENHO A IMPRESSÃO DE QUE SEI DO QUE ESTOU FALANDO, MAS talvez fosse mais fácil mais fácil identificar a natueza do nosso diálogo, dentro dessa sensação de pertencimento, quanto menor fosse o número de tipos. já esse aumento da segmentação dos tipos urbanos pode ter oferecido mais possibilidades de reconhecimento e uma espécie de chance para a “adesão total” desses indivíduos, convertendo tudo em identidades talvez tão confortáveis quanto vazias – ou pelo menos repetitivas, eu acho.

  7. maio 19, 2010 5:15 pm

    Aline, amei você ter me recomendado esse texto. Ele é, além de interessante, muito bom!
    Interessante pensar na moda por essa perspectiva dos uniformes, da identidade (“o que é a identidade?”), eu nunca tinha pensado assim. Afinal, o estilo é uma união de vários fatores mas é repetição de fórmulas familiares a cada dia que o torna ‘estilo’ propriamente dizendo. E o comentário do Felix faz todo sentido também…
    Vou ler tudo outras vezes depois, pra ver o que minha própria mente pode ir formulando a partir disso tudo…
    Beijos

  8. maio 21, 2010 3:24 pm

    Muito interessante esse post, gostei muito! E as fotos do August Sander são maravilhosas, fiquei encantada!

  9. maio 25, 2010 5:04 pm

    Aline!
    Hoje estava vendo tv e parei em um canal japonês (tv a cabo em Angola tem de tudo) que passava um programa sobre moda/tendências em Tóquio, e nesta edição tinha uma entrevista do editor-in-chief do WWD Japan com Yohji Yamamoto.
    Sobre sua última coleção desfilada em Paris, ele disse que preferiu dar mais atenção pro azul marinho porque é uma cor elegante (que quase não é usada), que além de elegância remete também a disciplina, a rigor, aos uniformes militares — e disse que adora uniformes, pois deixam transparecer a verdadeira individualidade de quem usa. (Pensei em você nesssa mesma hora!) Disse ainda que, ultimamente, as as pessoas se perdem nas tendências e fazem uma bagunça visual que não diz basicamente nada; ele acredita que quando alguém olha para um indivíduo tem que reconhecê-lo, admirar seu estilo e personalidade através da roupa, e não o estilista ou a marca da mesma.
    Preciso dizer que não conheço absolutamente nada sobre Yamamoto, mas o adorei instantaneamente depois de ver as peças do último desfile e da entrevista, pois achei muito inteligente e tudo a ver com aquilo sobre o que falávamos, sobre moda x identidade x estilo. Me fez pensar que, como o uniforme não pode ser ‘estilizado’, fica a cargo do indivíduo que o veste passar algo de si para quem o vê; mas no caso das roupas ‘comuns’, fica muito mais difícil passar essa tal identidade, até porque o próprio estilo, por mais original que seja, é uma uniformização (mesmo quando usamos roupas diferentes). Paradoxo…? hahaha
    Beijos

    • alinebotelho permalink*
      maio 25, 2010 5:20 pm

      Ai, Bel, que demais! Eu passei a amar ainda mais o Yamamoto depois desse filme, ele é realmente um gênio. E essa história do uniforme e das tendências é realmente um paradoxo incrível que me fez amar mais ainda a moda. Custa nada pensar um pouquinho além do óbvio, né? Olha só, no youtube tem o filme completo, o problema é que tem umas partes em que o Yamamoto fala em japonês e eles não traduziram, mesmo assim vale a pena dar uma olhada http://www.youtube.com/watch?v=wZA3a_XLCCs
      Adorei sei comentário e fiquei morrendo de vontade de ver o programa. Beijos!!

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