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O feminino borrado e o masculino não tão viril: comportamento e moda nos anos 90

abril 22, 2010
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*Por cotelgramps

Não vou falar do lugar de quem entende de moda. Antes disso, vou falar como quem viveu parte da adolescência e puberdade no late-90s e que por isso pode dar peso de experiência ao lance. Quando o assunto é estética de gênero (entenda aqui o comportamento de se vestir de homens e mulheres), escuto as coisas mais engraçadas no que se refere a esta década: desde a “o feminino resgatou a mulher sensual que usa rendas e baby-doll” à antítese “as mulheres eram livres e se vestiam como garotos, usavam jeans e bermudão”. Opa, cara-pálida, que confusão é esta?

Os mais relativistas poderão dizer que a década de 90 não teve uma referência central. Partindo desse ponto, a estética dessa época era traduzida numa confusão visual que retomou parte dos anos 60/70 no desapego a materialidade e possibilidade de usar um conteúdo mais apache ou folk, um certo anarquismo punk – jaquetas de couro e alguns elementos nos acessórios, como as tachas -, e até mesmo uma bagagem recente da década que a precedeu: os cabelos mais compridos, por vezes repicados, e algum tom de hardrock e metal sujo. De acordo.

Alguma coisa ainda não encaixa e a pergunta que se firma é: por que raios não pôde ter sido consolidada uma referência central nessa época, e por que, repetidas vezes, quando os fashionistas se referem aos anos 90, a palavra escapismo está sempre ali presente?


Não vou falar do lugar de que quem entende de história. Entretanto, um acontecimento me parece crucial para demarcar o começo da “geração vazia”: 1989, queda do muro de Berlim.

Há de se perceber que cisão do mundo em dois blocos encontrava sua derrocada. “Sem mais socialistas e capitalistas”, e um viva ao novo mundo global, aparentemente sem fronteiras e alarmantemente livre. Outra vez, advém um estranhamento: a resposta a esse novo panorama, sobretudo nos Estados Unidos da América, foi o consumo de heroína, criação da geração prozac/valium, e um quase niilismo juvenil.

A referência utópica e idealista de um mundo diferente para se viver que guiava a vida não parecia mais tão importante. As possibilidades de consumo e produção de gadgets encontrava sua maior ebulição e vimos uma certa melancolia no ar. Havia, agora, uma desilusão.

Diferente de alçar uma compreensão sobre a indumentária desta década a partir da multi-referencialidade das outras que a antecederam, cabe pensar num espírito da época, um zeitgeist. Diferente de pensar em androginia e empoderamento das mulheres, cabe pensar no feminino como borrado e o masculino como não tão viril.

Passada a revolução e conquista da liberdade sexual dos anos 70 e a exacerbação do exercício desta conquista nos anos 80, época do “vale tudo”, dos “bacanas, não caretas” e dos “sexualmente resolvidos”, encontramos nos anos 90 uma mulher ressaquiada, que carregava no seu corpo hematomas, sua escova já tinha passado do tempo, e as unhas estavam desgastadas. As rendas, diferente de denotar uma mulher a ser desejada, transparecia uma prostituta barata para a qual o sexo era tedioso. Nela, seu valor de objeto cai, e ela não mais se importa: aceitaria qualquer oferta.


Por outro lado, o masculino pode ser visto a partir do vocalista que melhor cantou a poesia da década: Kurt Cobain. Avesso às posturas prepotentes e viris, Kurt se apresentava passivo-agressivamente. Trajando apenas jeans detonado com camisas masculinas (nunca se esqueçam que a camisa de flanela xadrez era traje de lenhadores locais, opção barata de vestimenta contra o frio de Aberdeen, cidade natal do cantor) que pareciam não caber, Kurt se portava ora como cínico, ora como destrutivo. Essas duas posturas podem ser vistas com clareza tanto nas entrevistas que dava, sempre debochando do poder e se recusando a ser “estrela”, tanto em suas apresentações ao vivo, que culminavam na quebra da guitarra e demais instrumentos no palco, para êxtase da plateia.

É claro observar que a ausência de referencial político-utópico do mundo, a crescente hegemonia do discurso capitalista e a queda dos ideais, resultou numa modificação da estética de gênero. O masculino não viril e o feminino borrado foi o que a década de noventa produziu e agora, em 2010, está sendo revisitado. É importante ressaltar que borrado ou não tão viril, as marcas indumentárias das diferenças entre os sexos encontravam-se postas. Não é o que ocorre hoje.

Dizer que estamos “revivendo os anos 90” não se trata de uma afirmativa possível. Agora, factualmente, podemos falar em androginia, que seria o total apagamento das diferenças de gênero. A época em que vivemos não constrói mais homens e mulheres: constrói apenas consumidores. Pense nisso.

*Texto escrito a convite nosso pelo blogueiro baiano COTELGRAMPS. Apesar de  dizer que não entende nada de moda, a gente percebe a contradição – seus posts servem como um ótimo banco de imagens para quem procura referências culturais diversas. Ele também colabora no coolintheheat, blog sobre moda masculina, e você também pode segui-lo no twitter @cotelgramps


Texto a convite nosso pelo blogueiro baiano COTELGRAMPS. Apesar de  dizer que não entende nada de moda, a gente percebe a contradição – seus posts servem como um ótimo banco de imagens para quem procura referências culturais diversas. Ele também colabora no coolintheheat, blog sobre moda masculina, e você também pode segui-lo no twitter @cotelgramps

toma
ve ai
nao quero meu nome
quero ser como a lady gaga
A PARTIR DE HOJE SO RESPONDO COMO COTELGRAMPS
rs
eu, a courtney love, o prince, e a lady gaga. tudo fixado na imagem.
eu: e o cat stevens rs
kkkk
de: rs
eu: tá bom, tá bom
(contrariada)
rs
de: ve ai
ai
qd eu reoslverisso em analise, eu coloco
ou vc so quer essa colaboracao?
e meu perfil naotem meu nome nada http://www.blogger.com/profile/10128943581920177342
mentirosa
rs
eu: sempre q vc quiser escrever será bem vindo
mas não gosto de obrigação de postagem, ainda mais pq pra esse tipo de texto tem q ter uma motivação npe
não é sempre q surge rs
de: eu preciso de desejo,motivacao é coisa de gerente de firma querendo fazer trabalhador produzir
rs
eu: whatever rs
de: NAO É WHATEVER
VAMOS DESTRUIR O SISTEMA
eu: hahaha q medo
de: aloca
eu: eu sou comportada tb, não quero edestruir o sistema
vc está fazendo uma imagem errada de mim rs
de: eu quero casar
ter filhos
viajar pra frnaça
e comprar coisas boas
bons vinhos
de está digitando…
9 Comentários leave one →
  1. abril 22, 2010 4:14 pm

    Muito bom! contextualiza mto bem a época, deu vontade de ler mais sobre essa estética de gênero..

  2. abril 22, 2010 5:17 pm

    Muito bom o texto. Pra mim os anos 90 nunca ficaram claros e eu amei essa visão da estética dos anos 90.

  3. abril 25, 2010 1:10 pm

    Vamos jogar confete então, já que ele não entende nada de moda, né? rs

    A visão ficou perfeitamente clara, e dá pra pensar bem se estamos vivendo uma continuação dos anos 90 e se a época em que vivemos realmente só constroi consumidores. Será?

    Parabéns pelo texto, espero mais parcerias boas como essa, Aline!

  4. abril 25, 2010 9:12 pm

    Muito bom o texto!

  5. abril 26, 2010 10:06 am

    nossa, excelente o texto! às vezes precisa mesmo de alguém que “não entende nada de moda” para dar mais conteúdo para esse mundo de tendencinhas e revivals.

    parabéns!

  6. maio 18, 2010 5:43 pm

    Texto incrívelmente bem escrito e pensado.
    Como eu nasci e cresci nos anos 90, não vi nada da evolução da moda. É interessante ver tudo sob a ótica de quem viveu e acompanhou…
    E muita coisa dita faz agora sentido para mim, faz entender de onde saiu o que vejo agora. Adorei a colaboração.
    Beijos

  7. julho 17, 2010 1:50 pm

    Estava ouvindo Nirvana agorinha e lembrando de você. Post mais sua cara da história da humanidade.

    • COTELGRAMPS. permalink
      julho 17, 2010 2:10 pm

      Que documentário? Vc se lembra quando você foi obrigada e ver os documentários do Nirvana pra fazermos um trabalho da faculdade? Rs

Trackbacks

  1. Um Outro lado dos anos 90 « /duodeluxo

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