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Genealogia do grunge na moda

abril 2, 2010

Daí que o modismo mais recente foi batizado de neo-grunge.

Os mais muderrrnos devem estar pensando: “Novo? Isso já tá rolando desde 2007! Hello0o!”. Já aqueles que viveram o auge do movimento grunge, lá pelo fim dos anos 80 e início dos 90, e até os que entraram na onda tardiamente devem estar vendo tudo isso com certa incredulidade. Afinal, quem poderia imaginar que aquele (não) estilo sujo, composto por calças rasgadas, blusas  xadrez, flanela, cabelos ensebados e sobreposições a la mendigo, seria o último grito fashionista?

Calma. Não é que o mundo virou a nova Seattle e que todos vão sair por aí fazendo cosplay de Kurt Cobain. Pode não parecer, mas a moda é um pouco mais complexa que isso e não costuma trabalhar com tradução literal, ainda mais em tempos de mixagem de referências ad infinitum.

O neo-grunge vem misturado com outras duas tendências que já estavam rolando por aí, o boho-chic e o mendiguismo. Vamos aqui escavar um pouco a história da moda nessas últimas décadas e buscar as diversas referências para esses modismos recentes.

Não dá para falar de homeless chic sem lembrar do pauperismo de nomes japoneses como Kenzo, Issey Miyake, Yohji Yamamoto e Rei Kawakubo. Ainda nos anos 80, eles propunham uma nova forma de ver a moda que, pelo visto, estava pelo menos duas décadas a frente de seu tempo.

Vestido de 1987 da Comme des Garçons

Nos anos 90, estilistas como Alexander Mcqueen, John Galliano, Jean-Paul Gaultier e Marc Jacobs chocaram ao levar para as passarelas roupas inspiradas pelo estilo das ruas, numa tradução bem crua e nada glamourosa das antimodas.  Em 1993, o grunge aparece de fato na moda, com a coleção primavera/verão 1993 de Marc Jacobs para a Perry Ellis, abertamente inspirada em seu envolvimento com aquela cena.

Marc Jacobs para Perry Ellis spring/summer 1993

Em meados da década de 90, com a decadência das super models e a ressaca dos anos 80, surgiu um novo look caracterizado por uma pele bastante pálida, olheiras e uma magreza esquálida. Era o ‘heroin chic’, tendência underground que rapidamente virou mainstream, muito graças a figura de Kate Moss, maior símbolo desse novo padrão estético. O nome vem da popularização do uso da heroína, na época, largamente consumida pelas classes média e alta. Filmes como “Trainspotting” e fotógrafos como Juergen Teller, Corinne Day e Terry Richardson ajudaram a glamourizar o estilo em fotos icônicas. O declínio se deu com a morte de Davide Sorrenti, outro fotógrafo famoso dessa estética, que morreu de overdose.

O Boho-chic surgiu entre 2004 e 2005, associado às it-girls Sienna Miller, Mary-Kate e Ashley Olson, e Kate Moss pós fase junkie. O estilo é caracterizado por muitas sobreposições e pela mistura de elementos bastante urbanos, como jaquetas de couro e jeans, com elementos hippies e de cowboy, como estampas étnicas, acessórios com franjas, saris e botas. Outras variações do estilo foram chamadas de “homeless”, “bobo chic” e até “hobo-grunge”. O boho-chic é o precursor do hi-lo, cuja principal característica é a mistura de peças mais sofisticadas/caras com peças mais baratas/básicas.

Em algumas das principais coleções internacionais das últimas temporadas, todas essas tendências aparecem bastante misturadas, mantendo a ideia básica do mix de referências, do conforto de peças oversize e das muitas sobreposições, associadas à um espírito nômade.

Anna Sui / make 'heroin chic' Alexander Wang / Erin Wasson

Roberto Cavalli / Twenty8Twelve / Rag & Bone

Vivienne Westwood / Marc Jacobs / Rodarte

No Brasil, as redes de fast-fashion resolveram entrar na onda e já lançaram suas campanhas “grunge”. Mas na tentativa de unir o estilo com outras tendências que já estavam rolando por aí, como a onda “rocker-chic” das tachas, couro, paetês, acabaram perdendo a essência do despojamento,  do coolness, como é o caso da nova coleção da Espaço Fashion para a C&A. Já a Riachuelo, foi mais coerente ao fazer sua coleção “grunge” com uma pegada mais boho-chic, apesar de também oferecer, por vezes, apenas um amontoado de referências indistinguíveis. No fim, o que conta é mesmo o repertório.

Coleção "grunge" da Espaço Fashion para a C&A

Coleção grunge Riachuelo

11 Comentários leave one →
  1. abril 2, 2010 5:05 pm

    Muito boa tua visão sobre esses movimentos que, de tão recentes, ainda não possuem uma história clara se comparados aos movimentos das outras décadas na moda. Me pergunto qual será o próximo passo. Ainda há mais o que explorar nessa crescente evolução nas inpirações do underground ou a moda vai se voltar agora à riqueza? Quem sabe a riqueza antiga e barroca que apareceu recentemente na Balmain e em Alexandre McQueen?

    • alinebotelho permalink*
      abril 2, 2010 11:06 pm

      Pois é, eu estava até refletindo sobre isso no post que fiz sobre o homeless chic. Acho que depois disso a moda vai ter realmente que se voltar para o oposto, que seria a opulência, a riqueza. Mas é sempre assim, né, uma temporada no preto outra no branco.

      • Carol M. permalink
        abril 3, 2010 12:30 am

        não sei…. acho que a opulência vai voltar, com certeza, mas vai demorar um pouco. creio que continuaremos cronologicamente – estamos passando pelo grunge e o próximo passo é o minimalismo. é algo que apareceu bastante nos desfiles gringos, acho que a gente vai abandonar essa enorme quantidade de layers do mendiguismo para focar em algo básico e bem feito, mais focado em modelagem do que estampas….

  2. Carol M. permalink
    abril 3, 2010 12:31 am

    nooossa
    há séculos não leio um post em blogs tão cheio de informação. gostei, bastante =)

    eu adoro um estilo mais grunge. esse desfile do Marc Jacobs é muito bom, adoro ele.

  3. abril 3, 2010 11:05 am

    sou super a favor do grunge estilo anos 90, esse atual novinho bonitinho ñ acho bacana! viva ao kurt, viiiiiiiva! =*

  4. abril 4, 2010 5:56 pm

    Amei esse post, super informativo!
    Até acho que vá sofrer um pouco uma mudança nesse estilo, nada que se compare a C&A e Riachuelo kkkkkkk, mas acho que vai ser uma mudança por causa da época mesmo
    Exemplo, as ombreiras voltaram, mas não é como os modelos de antigamente, deu para entender o que eu tentei dizer, neh?! kkkkkkk

  5. abril 4, 2010 8:56 pm

    Muito bem escrito e com peso de quem no mínimo ou conhece ou fez uma pesquisa interessante na década (pra mim, óbvio) mais legal de todos os tempos. O revival grunge soa como a paródia de “come as you are”, quando da morte de Kurt Cobain: “eu me matei porque sou um rockstar”: o neo já surgiu morto. Mas não é que essa idéia de fetos natimortos , in utero, já estava previsto? Saudosista ou não, no revival falta a rebeldia escapista, porque, veja, escapismo, hoje, é estética vendida nos centros urbanos. Outra vez, parabéns, Aline.

  6. abril 4, 2010 8:58 pm

    Ah, e uma ficção atual que trabalha bem a essência e estética disso aí é Last Days – que tem uma cena incrível, por sinal, de pré sexo homossexual.

  7. Fernanda Taube permalink
    abril 7, 2010 10:13 pm

    É a terceira vez que eu leio esse post, achei muito bom.

    Nada na moda é fixo mais; é tudo tão passageiro que quando vir a próxima estação e resolverem que o hype vai ser se vestir de penélope charmosa, os poucos grunges trash way of life vão voltar a serem os esquisitos.
    Admiro quem tem personalidade forte pra isso e particularmente adoro esse estilo grunge sujinho.

Trackbacks

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  2. Cinematografia 90’s « /duodeluxo

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