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Tom Ford e o apego à beleza

março 23, 2010

Eu queria muito que Felix escrevesse esse post. Primeiro porque ele acompanha e curte o trabalho do Tom Ford muito mais do que eu,  segundo porque ninguém melhor que ele para escrever sobre a beleza. Mas como ele ainda não viu A Single Man (que no Brasil ganhou o famigerado título “Direito de Amar”), sinto-me incumbida dessa difícil tarefa.

Engraçado é que eu cai nesse filme meio que de para-quedas. Fui ao cinema para assistir “Um Homem Sério”, dos irmãos Coen, mas já na fila para comprar o ingresso vi que provavelmente não conseguiria lugar, a sessão já estava praticamente lotada. Então pensei: “se não der pra ver os Coen eu vejo o Tom Ford, que tem uma sessão logo mais. Prefiro ver os Coen, mas tenho curiosidade pra ver o primeiro trabalho cinematográfico de Ford também, apesar do pouco apelo desse cartaz de divulgação do filme”. E foi isso que aconteceu. Entrei na sala de cinema sem muita expectativa, achei que seria um filme de drama competente (não tem “elogio” pior, né?), nada mais. Agora, mais de um mês depois, aquelas cenas ainda não saíram da minha cabeça.

O filme me surpreendeu logo de cara. Do começo ao fim, o que vemos é uma sequencia de imagens de uma beleza arrebatadora, perfeita, plena. O cuidado com cada elemento em cena, os enquadramentos, as cores, a luz, o figurino (claro), a banda sonora, nada está ali por acaso. Ford conseguiu traduzir seu senso estético da moda para as telas de forma magistral, compondo um verdadeiro editorial em movimento.

A Single Man narra a história de um professor universitário, interpretado por Colin Firth, completamente desolado com a perda de seu companheiro, que morreu num acidente de carro. Para expressar os sentimentos do personagem, Ford se utiliza de recursos técnicos bastante sofisticados, como a manipulação da fotografia, que se apresenta ora mais saturada, nos momentos em que o protagonista relembra o passado, ora mais esvaecida, nos momentos que retratam o seu sofrimento. Mas falar de como Tom Ford soube usar os recursos técnicos em favor da narrativa  é o que há de mais óbvio, de mais saliente, e não dá conta do mais importante: a dimensão sensorial da obra.

Diferente de filmes que se propõem a passar uma mensagem ou induzir um estado emocional no espectador, em A Single Man Tom Ford está mais preocupado com a indução de efeitos nos sentidos humanos, ou seja, em produzir estímulos sensoriais. O compromisso de Ford é único e exclusivamente com a beleza, com o compadecimento diante dela. E isso ele consegue a cada cena, nenhum fotograma é desperdiçado, tudo é tão rigorosamente belo que às vezes chegar a irritar, agredir, constranger. Até os objetos são absurdamente bonitos: os apontadores milimetricamente posicionados na mesma distância em uma caixinha, o band-aid na gaveta, as garrafas de bebida, o isqueiro utilizado pelo personagem a la James Jean…tudo muito bem cuidado.

É uma obra de extrema sensibilidade estética, coisa não muito comum em filmes, sendo mais observada em artes plásticas e na música. Daí a dificuldade de muitos em compreendê-la em toda a sua complexidade. Mais do que cognição, ela requer um olhar sensível, treinado. Felix fez uma comparação que eu acho ótima quando ele falou da sua grande vontade de ver o filme: é como se a sensibilidade da Sofia Coppola ganhasse uma “macheza”, um olhar masculino para o drama. Acho que é bem por aí.

E para quem, como eu, tem um apego muito grande à beleza, deixo uma advertência: cuidado para não se frustrar muito ao sair do cinema e se deparar com o mundo real, o choque que senti foi grande. É uma pena que aquele universo de beleza etérea não possa ser materializado, dá vontade de morar no filme pra sempre. Aguardo ansiosamente a continuidade da carreira de cineasta de Ford.

4 Comentários leave one →
  1. março 24, 2010 12:23 am

    Adorei sua resenha e achei super interessante, quero ver!

    Beeijos

  2. março 24, 2010 9:59 am

    Ainda não vi, mas amei sua resenha. Pelo jeito vou amar, assim como eu amo uma estética bem cuidada e planejada em qualquer manifestação artística.

  3. março 24, 2010 12:40 pm

    Nossa, deu vontade de sair correndo pra ver! hahaha
    E ah, tinha que falar que adoro o jeito que você escreve… É tão gostoso de ler.

  4. março 24, 2010 7:47 pm

    Não vi ainda, mas estou doida para ver. Ainda mais depois de post, né?

    Beijo!

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