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A inteligente e a elegante

março 22, 2010

Na semana passada eu li um livrinho bastante interessante chamado “O Brasil tem Estilo?”, de Ruth Jofilly, lançado pela editora SENAC em 1999. Juntando depoimentos, textos literários e matérias jornalísticas, a autora faz uma pequena reflexão sobre o mundo da moda brasileira, conta um pouco de como a moda surgiu no Brasil e traça perspectivas para o futuro.

Um dos trechos mais legais do livro é a transcrição de uma crônica de Nelson Rodrigues intitulada “A inteligente e a elegante”, retirada do livro O Remador Ben-Hur, de 1996. Nessa crônica, ele descreve o encontro da escritora Clarice Lispector com Teresa de Sousa Campos, na época uma das dez mulheres mais elegantes do país. Clarice, que, além de escritora, também trabalhava como colaboradora da revista Manchete, no final da década de 60, é escalada para entrevistar Sousa Campos. Insatisfeita com a tarefa, deixou gravado um depoimento que diz muito sobre como o meio intelectual vê a moda:

“A mulher mais elegante não me interessa. (…) Há problemas mais sérios do que a moda, individuais ou não individuais. Queiram os céus que Teresa não seja apenas o primeiro figurino do país. (…) É que o Brasil precisa de muito, e não precisa nada de primeiro figurino”.

Em sua crônica, Nelson rebate de forma genial as opiniões de Clarice:

“Séra que, para Clarice, a ‘elegância’ é um defeito? Será que cada um de nós se deve irritar com ‘a mais elegante’? Será que o justo, o certo, o correto, o nobre é ‘não ser elegante’? E se fosse ‘a menos elegante’ alguém ganharia com isso? (…) Escreve minha amiga Clarice que ‘há coisas mais importantes’. Claro. Sempre há ‘coisas mais importantes’ do que escrever romances, por exemplo. Somos uma terra de analfabetos. Alguém poderia perguntar: ‘Por que escrever romances que a maioria de analfabetos não vai ler’? Todos nós, intelectuais, deveríamos estar construindo escolas ou, não sei se na pior ou melhor das hipóteses, ensinando o que sabemos.

“Por que a ‘pessoa’, entre aspas, não pode se vestir, e cheirar bem, e ser bonita, por quê? A pessoa tem que andar de tamancos, e pôr as mãos nas cadeiras, ou cuspir em quem passa por baixo? (…) Mas vamos admitir que a elegância seja uma limitação. Mas as mal vestidas também só andam mal vestidas e nada mais. O simples fato de andar suja cheirando mal nunca fez uma heroína, uma Joana D’Arc, uma Bernadete ou uma madame Curie.”

E hoje, mais de 40 anos depois, o estigma do supérfluo persiste. Mas por que será que a futilidade, a frivolidade, o supérfluo incomodam tanto?

7 Comentários leave one →
  1. Fernanda Taube permalink
    março 22, 2010 7:08 pm

    Porque as pessoas ainda são ignorantes.

    Admiro Clarice e coisa e tal, mas nesse ponto concordo 100% com Nelson Rodrigues.

    CLARO que existem problemas e assuntos mais importantes, mas isso não pode nos obrigar a dedicar todo nosso tempo a ajudar crianças foragidas da guerra do oriente médio.

    E, se Clarice era escritora, também fazia arte, não? Assim como a moda é uma arte.
    Por que ler literatura erudita é mais inteligente que ler artigos de moda?
    É muita hipocrisia, chega a me irritar.

  2. março 22, 2010 9:46 pm

    Também concordo com Nelson Rodrigues… Pra tudo na vida SEMPRE existem coisas mais importantes.
    A elegância não pode ser um defeito. Assim como a moda não pode ser vista apenas como futilidade.
    Elegância, beleza e inteligência podem SIM andar lado à lado.
    Ter uma Chanel ou ler Dostoiévski não dá o poder a ninguém de ser melhor do que o outro.

  3. Palavras e Artes | Taís Ribeiro permalink
    março 22, 2010 11:56 pm

    clarice é uma das melhores escritoras do mundo, tem um “q” especial em suas obras… e acho que a futilidade perante a elegancia continua porque mtuita gente acaba sendo ignorante e inútil vivendo a espelho de modelos. Uma coisa que sempre vejo são atores “super chiques”, mulheres empresárias e mta gente do mundo da moda super elegante abrir a boca e soltar aquele palavrão, ou passar horas no paperview do bbb… a roupa pode ser a mais deslumbrante, mas sem inteligência? sem elegancia!

    beijos

  4. março 23, 2010 11:20 am

    já anotei a di-ca.
    =*

  5. março 23, 2010 11:50 am

    Adorei o post, super interessante!
    Clarisse é uma escritora maravilhosa, mas acho que não devemos enxergar a elegância como algo somente aparente. A pessoa pode sim ter mais para revelar por trás de uma roupa bonita, né?
    O que não faz dela fútil! Temos que conhecer pra analisar. Tem muuuita gente fútil por aí que anda elegante ou não, isso não é regra. Moda não é fútil, quem faz a futilidade das coisas são as pessoas.

    Concordo com Nelson Rodrigues.

    Beeijos

  6. março 23, 2010 5:10 pm

    Adorei o texto, muito bom e classudo!
    E realmente não confio em quem linka moda à futilidade, só quem não conhece mesmo sobre o assunto p/ fazer algo assim….
    moda é arte, é prazer e cultura….talvez para alguns q vivem de consumir moda, a palavra fútil se encaixe melhor…o consumismo em exagero torna-se fútil, no mais…é burrice.

    bju gataaaa!!!!!

  7. março 23, 2010 6:26 pm

    Ótimo post! E Nelson Rodrigues sempre genial!

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