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E agora, o que é antimoda?

março 15, 2010

O mendigo das ruas de Ningbo, na China, que virou ícone fashion

A moda tem me deixado muito confusa ultimamente com toda essa conversa de  “homeless chic”. O estopim para o alarde dessa nova “tendência” foi a descoberta, na semana passada, de um mendigo chinês que anda por aí com sobreposições dignas das últimas coleções desfiladas nas semanas de moda internacionais. Já apelidado de Brother Sharp, Beggar Prince e Handsome Vagabond, o cara virou assunto em alguns dos principais jornais e blogs mundo afora, causando a ira de muitos que veem isso como mais uma perversidade do mundo da moda.

Essa parece ser mais uma das releituras, talvez a última, de um dos muitos movimentos que aconteceram na moda dos anos 80. O pauperismo, nome pelo qual foi batizada a moda conceitual de nomes japoneses como Kenzo, Issey Miyake, Yohji Yamamoto e Rei Kawakubo, caracterizava-se por uma desconstrução das roupas através de sobreposições, assimetrias e buracos. Na paleta de cores, muito preto e tons de cinza.

Edição de 1993 da revista francesa Depeche Mode com a famosa coleção "mendiga", de 1983, da Comme des Garçons

E já faz algum tempo que essa tendência vem ensaiando aparecer. Só para citar alguns exemplo, tivemos o editorial de setembro da Vogue Itália, inspirado na obra “Os Miseráveis”; a polêmica foto de um mendigo tirada pelo sr. Sartorialist, em agosto; e, mais recentemente, o editorial da Vogue Paris de março desse ano:

Iselin Steiro por David Sims na Vogue Paris de março de 2010

Nas passarelas de Nova York, desde o ano passado, acompanhamos coleções que seguem essa tendência, de Alexander Wang a Erin Wasson, só que com um ar muito mais sofisticado e longe das provocações intelectuais do pauperismo, daí o famigerado termo “homeless chic”. Com o pauperismo, a moda encontrou uma forma de fazer a transição dos anos 80 para os anos 90, onde encontra o estilo largado do grunge, que tanta gente já tinha falado por aí que era o hit do momento. Pauperismo vira homeless chic e grunge vira neogrunge – com todas as implicações que advêm dessa mudança.

Todos sabem que a moda é cíclica e vive de fazer releituras, o que uma vez chocou e causou repulsa pode no futuro ser considerado bonito e agradável. Já tivemos a releitura do movimento hippie, com o hippie chic, do movimento punk, que acabou sendo apelidado pelos mais puristas de punk de boutique, e de outros tantos estilos que surgiram das ruas. Agora é a vez do grunge ser diluído e adaptado para o gosto fashion, numa releitura que pouco dialoga com as origens do movimento.

Edição de março do ano passado da Vogue Brasil: grunge virou glamour

Não estou querendo colocar nenhum juízo de valor sobre essa relação da alta moda com a moda de rua. A cultura pop tá aí pra misturar tudo mesmo e eu aprecio muito um belo jogo de referências. Mas, como eu disse no início do texto, eu ando meio confusa.

No final do ano passado, eu falei aqui sobre como é complicado dizer que blogs como o Sartorialist e o Face Hunter fazem moda de rua, já que o que eles fazem é basicamente fotografar fashionistas que se apropriam da moda de passarela circulando pelos bairros mais badalados. A moda de rua, ou antimoda, surge como contestação, como algo fora dos padrões vigentes. Ela não segue os moldes das passarelas, muito pelo contrário, ela serve de inspiração para os estilistas.

Mas depois do grunge, que outro movimento genuinamente das ruas surgiu? E se tudo o que a gente entendia como antimoda já foi apropriado pela moda, como fica esse conceito nos dias de hoje? Tenho refletido muito sobre isso, porque eu não saberia identificar nenhuma antimoda atualmente. A moda está cada vez mais fazendo parte da vida das pessoas (com a internet, com o fast-fashion, a rapidez na apropriação das tendências…) e nenhum fenômeno urbano atual me parece fora desse contexto. A ascensão dos blogs de street style já sinalizavam a crise da antimoda e essas últimas tendências só confirmam o esvaziamento do sentido primordial do termo. Talvez só uma revisão histórica dê conta de encaixar essa ideia nos novos rumos que a moda está tomando.Tem que viver pra ver.

11 Comentários leave one →
  1. março 15, 2010 9:47 pm

    Amei o post, ótimo texto como sempre!
    Também andava intrigada com esse conceito homeless chic e depois da foto do chinês aí então…só piorou!
    Concordo contigo no que você diz sobre não haver hoje nada que se encaixe no conceito antimoda, e que a mesma está cada vez mais democrática e inserida na vida das pessoas.
    Acho isso super interessante, mas me intriga saber o rumo da história!

    Viver pra ver mesmo!

    Beeijos

  2. março 15, 2010 10:27 pm

    só confusão!
    e esse lance de estar tudo misturado é bom mas é caótico…
    post muito bom, sucesso! ;*

  3. josef permalink
    março 16, 2010 1:54 pm

    acho que a anti-moda, essa possibilidade de realmente romper com o vigente, aconteceu uma u’nica vez, 68-72, mas rapidamente foi engolida pela indu’stria, mi’dia, grana…
    talvez isso que vc chama de anti-moda sejam as antigas tribos, efervecencias juvenis.
    no ini’cio dos anos 2000 tudo isso caiu por terra, td ficou englobado.
    acho a pobreza ostentato’ria irresisti’vel! ela e’ o deboche! e’ a piada defronte ao consumo louco, as grandes marcas. ela poe a roupa em seu devido lugar!
    mas se perde, ao meu ver, qdo se adentra a loja da comme des garcons, e o trapo vale milhares de dinheiros. isso me deixa confuso.

    • alinebotelho permalink*
      março 17, 2010 4:09 pm

      Oi josef.

      eu costumo usar a definição que propõe que antimoda é o mesmo moda de rua. Não essa moda de rua que vemos hoje em dia em blogs de street style, onde costumam fotografar fashionistas mundo afora, mas moda de rua no sentido de ser aquilo que não segue as passarelas, que surge genuinamente das ruas mesmo. Assim, acho que o grunge, por exemplo, da forma como surgiu, pode ser considerado uma antimoda. Antes do estouro do Nirvana, o grunge não tinha essa imagem “limpinha” que conhecemos, era algo bem fora dos padrões da época, roupas velhas, sujas, rasgadas, reflexo do punk. Só acho que depois do grunge não ouve mais nada do tipo, todos os movimentos ficaram muito estilizados, vide os emos.
      Mas de fato o fenômeno que ficou conhecido como antimoda veio dessa época que você falou, final dos anos 60 e início dos 70.
      Sobre essa pobreza ostentatória acho bastante interessante também, mas depende muito de quem faz e, como você falou, chegar na loja e ver que o tal trapinho custa mais de mil dólares é complicado.

      • josef permalink
        março 17, 2010 5:07 pm

        eu, uma época comecei a contestar-me pq as pessoas nao andam por aí fantasiadas, afinal estamos no futuro, e acredito que hj em dia a roupa pode estar em um novo lugar. Lugar aquele que já nao define tanto assim quem cada um é.
        Minha proposta seria levar a roupa às últimas consequências do lúdico. Uma liberaçao geral! Meu sonho.
        Eu fiquei viajando um tempo e recentemente voltei ao Brasil, mais especificamente ao RJ, onde é tao difícil se expressar via traje. Acho que no exterior, NY/Paris/Barcelona/Berlim, a moda está tao dissolvida na sociedade + individualidade respeitada. Difícil saber onde começa e onde termina, de onde vem…
        Para mim o grande movimento é exatamente esse, o da individualidade, onde cada um pode se expressar, sem “certos e errados”. Sigo acreditando nas sobreposiçoes de roupas, como sobreposiçoes de fatos que caracterizam a história particular de cada um.

  4. março 16, 2010 3:41 pm

    Gente, eu vi esse mendigo ontem em algum jornal na TV! Não acreditei! Ótimo post!

  5. março 17, 2010 1:44 pm

    ótimo texto
    vi a matéria no site do yahoo dia desses, lembrei do felix rsrsrs

    • __felix permalink*
      março 18, 2010 3:13 pm

      iris, LEMBRA DE MIM! sempre tive essa tag mendicância no guarda roupa e quero esse reconhecimento. já até msm me deram ESMOLA na rua. repreensões, nem contabilizo mais. acho bonito a moda perverter as coisas a esse ponto. pra minha tristeza, a minha vocação mendiga nem sempre é sob essa ótica. talvz não seja uma opção. rs.

      • alinebotelho permalink*
        março 18, 2010 3:21 pm

        kkk como não lembrar de vc? nunca vou esquecer como já curtiamos essa tendência em 2007 e até mesmo tínhamos planos de fotografar os mendigos *estilosos* de Salvador. Pena que não botamos em prática rs

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