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Sobre roupas, sexualidade e androginia

março 12, 2010

Certo dia, lendo “Orlando, uma Biografia”, romance de Virginia Woolf de 1928, tal foi minha surpresa ao me deparar com trechos em que a escritora discorre brevemente a respeito das roupas. Segue a transcrição:

“Embora parecendo simples frivolidades, as roupas, dizem eles (os filósofos), desempenham mais importante função que a que nos aquecerem, simplesmente. Elas mudam a nossa opinião a respeito do mundo, e a opinião do mundo a nosso respeito. Assim, por exemplo, logo que o Capitão Bartolus viu as saias de Orlando, já tinha um toldo preparado para ela, e insistia para que servisse de outra fatia de carne, e convidava-a a descer para terra com ele, em sua lancha. Não teria recebido essas atenções se, em lugar de ondularem, suas saias estivessem justas às pernas, sob forma de calças. (…) Assim, bem se pode sustentar a tese de que são as roupas que nos usam, e não nós que usamos as roupas; podemos fazê-las tomar o molde do braço ou do peito; elas, porém, modelam nossos corações, nosso cérebro, nossa língua, à sua vontade”.

Ela ainda arremata:

“Isso é a opinião de alguns filósofos e sábios, mas nós temos outra. A diferença entre os sexos tem, felizmente, um sentido profundo. As roupas são meros símbolos de alguma coisa profundamente oculta. Foi uma transformação do próprio Orlando que lhe ditou a escolha das roupas de mulher e do sexo feminino. (…) Embora diferentes, os sexos se confundem. Em cada ser humano ocorre uma vacilação entre um sexo e outro; e às vezes só as roupas conservam a aparência masculina ou feminina, quando, interiormente, o sexo está em completa oposição com o que se encontra à vista.”

Só para vocês entenderem melhor, o livro conta a história de um nobre inglês nascido no século XVI que se transforma em mulher e atravessa o tempo até chegar aos anos 20 do século XX. Através das aventuras e desventuras do personagem, que está constantemente em busca do amor e da arte, Woolf apresenta um panorama das transformações sofridas pela Inglaterra e coloca de forma bastante complexa as diferenças entre homens e mulheres. Segundo fontes históricas, Orlando é um romance semi-biográfico inspirado na vida de Vita Sackville-West, amiga íntima e affair de Woolf.

Bom, não quero aqui entrar no mérito de uma discussão literária – até porque este é só um recorte da obra. Selecionei esses trechos porque achei bastante interessante a relação que Woolf estabelece entre roupas e sexualidade, principalmente se formos levar em consideração o ano em que o livro foi lançado. Pensem que na época em que se passa a história ainda não existia essa intersecção que existe hoje entre as vestes masculinas e femininas, fruto das transformações instauradas, em grande parte, pelo mundo moda. Interessante também como Orlando, esse personagem imaginário, aparece no livro como um ideal andrógino de ser humano, um ser que transita sem muitos problemas entre os universos masculino e feminino, guardando as melhores características de cada um dos dois mundos.

Daí que nos meus devaneios fiquei aqui pensando no que seria um encontro entre Orlando e Ziggy Stardust, persona andrógina espacial incorporada por David Bowie na década de 70. Seria Ziggy uma reencarnação de Orlando?

PS: Sei que o assunto merece um post mais aprofundado, mas isso eu deixo pra próxima. Bjs.

One Comment leave one →
  1. __felix permalink*
    março 18, 2010 3:21 pm

    como sempre, ídola!
    manifesto aqui, publicamente, meu medo (por mais q sempre digas que é infundado) de ser DEMITIDO deste blog, tão bom que ele é.

    muito inspirador esse seu passeio pela virginia.

    bjs&sdds

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