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Por uma moda menos ordinária

janeiro 5, 2009


Outro dia estava lendo um texto sobre a crise financeira e a moda. Ele basicamente defendia que a moda deveria condizer mais com a realidade, criando coisas mais simples e usáveis, mas sem perder a elegância e a sofisticação.

É inegável os efeitos da crise no mundo da moda. Até a maison Chanel anunciou que poria fim em todos os contratos de tempo determinado e temporários a partir de 31 de dezembro do ano passado. Já Miuccia Prada diz estar estudando maneiras de poupar diante da crise, trabalhando, segunda ela, com o que é “fundamental e mais importante, sem frufrus demais”.

Diante dessa perspectiva, a moda e seus consumidores parecem estar vivendo uma espécie de culpa pela futilidade. Toda vez que acontece um evento como esse, que abala as estruturas econômica e social, as pessoas exigem um certo engajamento da indústria cultural. No texto, o autor elogia os desfiles de Jil Sander e Lanvin, pela simplicidade e funcionalidade, com “forte apelo de vida real”.

Não entendo porque todo mundo sente tanta necessidade de que os produtos culturais tenham uma postura pró-ativa em relação a temas sociais. É quase como uma culpa católica: como posso estar consumindo produtos culturais apenas para meu prazer pessoal, enquanto estão acontecendo coisas tão mais importantes no mundo agora? Tudo isso parte ainda de uma crença de que a estrutura da indústria de massa é alienante e que, portanto, corroborar com ela é criar uma sociedade de alienação.

O que se precisa entender é que os produtos culturais não precisam ser necessariamente engajados e corresponderem a realidade. Eles existem com o pressuposto de entreter e não há nada de errado nisso. A arte pode ser contestadora por si só, sem precisar se apropriar de características do cotidiano, e é justamente a sua não funcionalidade que dá a ela o status de Arte. Querer que todos os desfiles de moda se tornem mais simples e “reais” é como pedir para não se fazer mais filmes de ficção, mas apenas documentários; ou deixar de criar romances e fazer apenas biografias e textos jornalísticos.


O que importa não é o grau de “realismo” presente em determinado produto, mas sim a qualidade dele enquanto produto cultural. É isso que define sua relevância. Não tem porque criticar um desfile maravilhoso como o de Ghesquière, para a Balenciaga, simplesmente porque as roupas não são usáveis no dia-a-dia. A função do desfile não é apenas mostrar o que vai ser tendência na próxima estação. Ele é também capaz de trazer novas idéias e fazer o espectador sair pensando sobre aquilo numa dimensão muito maior do que o do simples vestir.

Eu também adorei os desfiles da Lanvin e da Jil Sander, mas não por causa da sua conexão com a realidade, e sim porque foram desfiles muito competentes, com uma complexidade envolta em uma aparente simplicidade. Adoro elegância discreta e concordo que menos, nesse caso, é mais. Mas a moda não precisa estar de acordo com o nosso tempo, ela precisa estar de acordo com o tempo dela, que é o da criatividade e da artisticidade. Colocar uma necessidade como esta na moda é vesti-la com uma camisa de força. Em vez de exigir engajamento, vamos exigir frescor e inteligência, melhor.

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