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A moda na era da reprodutibilidade técnica

dezembro 22, 2008


Sob o calor da cidade de Cantão, mulheres trabalham em uma fábrica de tecidos. Em meio às máquinas de costura, seus rostos carregam a incerteza do futuro. No inverno de Paris, a estilista Ma Ke apresenta sua nova marca, intitulada Wu Yong (Inútil). Suas roupas feitas à mão criticam de forma conceitual o mercantilismo da moda. Na empoeirada Fenyang, uma alfaiataria recebe mineradores que vão reparar os uniformes e trocar conversas. As roupas, por sobre a pele, carregam a memória de quem as faz e de quem as veste.

O texto acima é uma sinopse de um filme chinês, produzido em 2007 (mas que só chegou no Brasil agora), chamado Wuyong (Inútil, em português). No filme documentário, o cineasta Jia Zhang Ke apresenta o seu olhar sobre a dicotomia presente entre a China desenvolvida da metrópole e a China atrasada do interior. Para ilustrar essa diferença, o diretor escolheu o mundo da moda. Enquanto vemos grandes marcas, como Dior e Prada, nas cidades centrais, acompanhamos o trabalho de alfaiataria ainda bastante presente nas cidades menores da China.

Para concretizar a crítica sutil do filme, somos apresentados ao trabalho de uma estilista que criou uma marca de roupas chamada Inútil. Ela pretende mostrar como o trabalho industrial retira o caráter singular existente em cada peça de roupa, já que elas são feitas por máquinas que serializam o processo. No filme, ela diz não existir uma conexão entre a roupa e o consumidor nesse processo, e, por isso, produz suas roupas manualmente.

Tudo isso me fez lembrar toda aquela teoria frankfurtiana sobre a indústria de massa e o fim da arte. Segundo Walter Benjamin, um dos teóricos dessa escola, a obra de arte, sendo difundida em inúmeras cópias circulantes, perderia a unicidade que a distinguia na sua sacralidade pré-industrial, isto é, perderia a aura.

A moda, como todos os produtos inseridos na indústria cultural, passa um pouco por essa crítica e é quase impossível a não comparação dos processos de manufatura e industrial. Não há dúvidas de que a indústria ajudou muito na rapidez e qualidade do trabalho e ir contra isso chega a ser um pouco bobo. O mundo atual exige um processo que dê conta do consumo elevado da forma mais eficiente possível. Produtos feitos de forma serializada também podem ter uma artisticidade embutida, diferente do que se acreditava quando essa teoria foi proposta. Por outro lado, o trabalho manual realmente conserva uma beleza e dá uma singularidade a roupa, já que uma peça feita à mão nunca será igual a outra, mesmo tentando copiá-la.

O bom do filme é que ele não se atém a fazer uma crítica ferrenha à indústria da moda e nisso ele é bastante inteligente. Não se trata de forma alguma de um manifesto contra o progresso, mas sim de um olhar delicado sobre a conservação de um modo de produção pouco observado hoje em dia. O filme guarda imagens bastante bonitas e merece ser visto.

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